domingo, 15 de enero de 2017

RICARDO SILVESTRIN [19.863]


Ricardo Silvestrin

Ricardo Silvestrin (Porto Alegre, 17 de mayo de 1963) es un escritor y músico brasileño. 

Graduado en Artes por la UFRGS, en 1985. En el mismo año publicó su primer libro de poemas, "Viagem dos olhos", por Coolírica editora. Desde entonces, otras 15 obras de poesía ha publicado. Ganado 5 veces el Prêmio Açorianos de Literatura, como poeta (1995 y 2007), como autor de un libro para niños (1998), como editor (Ameopoema editor, 2005) y el más destacado de medios (el programa de radio  "Transmissão de pensamento" "La transmisión del pensamiento", 2008). Su libro de 2004,  "É tudo invenção" fue seleccionada para representar a Brasil en la 41ª Feria de Literatura Bolonia e integra la base de la Biblioteca del Estudiante brasileña, el FNLIJ, además de formar parte de los programas de PNBE y aptitud de lectura en  Idade Certa.

Ha participado en varias antologías, entre ellas la revista "Frogpond" antología mundo del haiku, publicado en 2000 por la Sociedad de Haiku de América en Nueva York. En 2008 se publicó su primer libro de cuentos, "PLAY". Al año siguiente, su primera novela, "O Videogame do rei".

En 2001, con los poetas Alexandre Britto y Ronald Augusto creó el grupo musical: os poETs. Acompañado de músicos invitados, los poetas han actuado en Sao Paulo, Río de Janeiro, Manaos, Brasilia y Curitiba, además de varias ciudades de Rio Grande do Sul y Santa Catarina    cantando sus propias composiciones, y ya han grabado dos CDs: "Música legal com letra bacana" (YB Gravadora, 2004) e "os poETs 2" (Loop Reclame, 2009). En 2013, os poETs ao vivo, DVD para mostrar en Mario Quintana, Casa de la Cultura. 

De 2003 a 2009, Ricardo Silvestrin escribió una columna quincenal en el diario Segundo Caderno do jornal Zero Hora. De 2008 a 2011, dio clases de guión y dramaturgia en Curso de Realização Audiovisual da Unisinos.

En diciembre de 2010, fue designado para hacerse cargo del Instituto Estatal del libro, una posición que mantuvo hasta mayo de 2012.

Es columnista del sitio de la revista Musa Rara e da revista Lamás Medula, da Argentina.

WEB: http://www.ricardosilvestrin.com.br/

Libros publicados:

2013: "Metal" (poesia, Artes e Ofícios Editora)
2013: "Los Seres Trock" (poesia infantil, Montevideo, Topito Ediciones)
2009: "O videogame do rei" (romance, ed. Record )
2009: "A moda genética" (poesia infantil, ed. Ática )
2008: "Transpoemas" (poesia infantil, ed. Cosac Naify )
2008: "Play" (contos, ed. Record)
2006: "O menos vendido" (poesia, ed. Nankin)
2005: "Mmmmmonstros!" (poesia infantil, ed. Salamandra)
2004: "ex, Peri, mental" (poesia, ed. Ameopoema)
2003: "É tudo invenção (poesia infantil, ed. Ática)
1998: "Pequenas observações sobre a vida em outros planetas" (poesia infantil, ed. Projeto) (reed. em 2004 pela ed. Salamandra)
1995: "Palavra mágica" (poesia, Ed. Massao Ohno)
1992: "Quase eu" (poesia, coleção Petit Poa, SMC)
1988: "O Baú do Gogó" (poesia infantil, ed. Sulina)
1988: "Bashô um santo em mim" (haicais, ed. Tchê)
1985: "Viagem dos olhos" (poesia, ed. Coolírica)




Poemas do livro Typographo (2016), de Ricardo Silvestrin:


CORO

Máscara do riso,
máscara do choro.
- A vida é improviso,
comenta o coro.

Máscara do choro,
máscara do riso.
- Com dente de ouro,
vale mais o sorriso?

Máscara do riso,
máscara do choro.
- Viver é só isso,
o nada é o tesouro.

Máscara do choro,
máscara do riso.
- Coroa de louro
na chuva de granizo.




EQUILÍBRIO

Carrossel de estrelas
gira sobre nossa cabeça.
É impossível retê-las.

Pelo lado de dentro,
acompanha o pensamento,
feito do que se faz o infinito.

E, no entanto, um eu
tenta encontrar o equilíbrio,
andando no céu como um ébrio.

Nuvem se desfaz em fumaça,
roda o relógio na torre,
avisando que a vida passa,

que o tempo escorre.
E, no entanto, um eu
vive sóbrio de porre.

O que se vê está fora de foco,
é só a luz sobre as coisas,
consumidas na dança do fogo.

O oceano trama com a lua
a tormenta, a bonança, enquanto 
um eu, com os pés no chão, flutua.




PRODUÇÃO

Não deixe ninguém ver o morto
antes que esteja arrumado.
Nem de lado, nem de bruços,
na sua caixa nova
à prova de soluços.

Não o mostrem ainda,
enquanto se acostuma
com a morte que chega,
com a vida que finda
na moldura de flores.

Guarde pra depois todas dores,
condolências, pêsames
e expressões esquisitas.
O morto está se preparando
pra receber as visitas.




METRO

Se o poeta conta sílabas,
o caos todo se ordena,
o dinheiro não acaba,
ou tudo é alheio, vento, vário,
e o poeta perde a conta,
perde o prazo, paga juros?

Se o coitado conta sílabas,
a incerteza se conforma,
as respostas andam em fila,
inconsciente se decifra
no meio da rua, dia claro?

Pois assim parecia ser
quando o poeta, quando o mundo
eram um número pequeno,
fácil de contar nos dedos.




OVO

É fácil vender armas
a quem vive em guerra,
a um cérebro preguiçoso
vender a nova novela,

viciar um beija-flor
com água e açúcar,
a você e a mim mesmo
com a eterna desculpa.

É fácil ser o herói
que nunca entra na luta,
obrigar mais um filósofo
a ter que beber cicuta,

por em pé o ovo óbvio
a uma plateia obtusa.




LABIRINTO

Felicitar a felicidade dos outros.
Hoje o sol vai brilhar para todos.
Mesmo quem vive só e no escuro
vai se aquecer e retomar a vida.

Está escrito com letra ilegível
que uma alegria invisível e teimosa
se oculta no labirinto da rosa.

Felicitar a felicidade alheia, remota,
quase uma ideia numa língua morta.




VARIANTES

Não haverá mais rascunho
escrito de próprio punho.
Os erros e acertos somem
deletados em redemunho.

Jamais saberão as variantes.
O depois apagou o antes.
Pra sempre, até o infinito,
vale o que está escrito.

Estudiosos estudantes,
curiosos professores,
mestres e doutores,
bolsistas, doravante,

o texto é este e pronto.
Poema, romance, conto,
está feita a escritura.
Aberta continua a leitura.




SEGURO

Ninguém pode viver numa canção
como no útero protegido da mãe.
Uma hora vai sair,
a canção tem que acabar.

Há músicas dissonantes e inacabadas,
partituras para executar o silêncio,
baquetas quebradas,
cordas rompidas.

Sobra a melodia da fala,
linear e rala.

Ninguém,
se alguém não for assim,
me diga.
Ninguém fez seguro
contra infelicidade.



  
O VELHO ILUSIONISTA

O velho ilusionista na tarde de madeira
e pouca luz.

E como está distraído,
quase sem existir por inteiro,
vamos entrar na sua aura de fumaça.

Atrás do pano surrado da sua alma,
baralhos marcados, cartuchos com panos coloridos,
nada disso se encontra.

Apenas um silêncio.
Silêncio não:
se escutar bem,

apenas imagens, pontos, linhas,
se virar tem barba,
se virar tem cabelo.

E um suspiro profundo,
cansado
por repetir os mesmos truques.

Mas, antes que pergunte
se quer largar tudo,
uma explosão de espoleta o projeta.

Para onde?




DANÇA

Sim, existe a dança:
o corpo solto avança
e recua leve nos passos
matemáticos, um, dois, um,
como se fosse mais fácil
viver num tempo menor,
brincadeira de criança
que sabe de cor o roteiro
e ri na hora marcada.

Fora da dança, o infinito
nos convida, nos seduz
com passos improváveis,
mas temos dois olhos,
apenas duas pernas,
e, sobretudo, duas mãos
onde só cabe um punhado
de estrelas.



CONTAGEM REGRESSIVA

Você já tem todo este tesouro
e ainda quer mais.
Se o mundo findasse hoje,
estava de bom tamanho.
Ouro fundido por séculos,
o sol feito à mão,
erguido a cada dia.

Você já tem toda a riqueza
e reclama que falta um pedaço
na fatia que você mesmo comeu.

Você queria que o gozo
durasse pra sempre,
que o corpo seguisse rijo
e acha que sai perdendo
quando troca cada dia da juventude
por outro novo da velhice.

Você tem toda a razão,
você agora queria ser deus,
mas não dá mais tempo.




(do livro Metal, Ricardo Silvestrin, Artes e Ofícios Editora, 2013)


Nada garante que esta noite
se apague no claro do dia
só porque um dia antes
era assim que acontecia.
Dorme teu sono, acorda dissonante,
sem saber se eras tu
ou tua sombra
que do sonho emergia.
Lava teus olhos, cospe na pia.
Enquanto dormias,
o espelho estava acordado.
Abre a janela, espia:
quem sabe o mundo
ainda está do outro lado.


*


a gente é metade mãe
metade pai,
mas só no momento
da fecundação

depois, metade gesto
metade pensamento

gestos como os do pai
ou da mãe
feitos sem perceber

pensamentos alguns livres
outros herdados

a casa é ampla
cabem mais metades

palavras dos amigos
novos gestos aprendidos
na admiração



Tela 1

Um homem azul anda de bicicleta.
Velho, velho e nu.
Seu rosto riscado
de quem não tem
mais nada a perder.
Seus pés no pedal
em direção ao prazer.
Prazer de quê? De viver.
Mesmo sabendo que vai morrer.
E morrer logo, pra ontem,
cada hora uma vitória.
Um passeio no azul,
o moribundo nos convida a viver.
Mas estamos muito vivos pra viver como ele,
sem nenhum segundo de morte.
Nossos rostos ainda não estão riscados
nem pintados de azul.




Tela 20

A bailarina, tão suave,
quase não existe.
O vestido verde
se dilui no verde
da luz,
mas ela,

que é cor de pele,
quase some,
na ponta dos pés,
a um palmo do chão.
Se a jogarem pra cima,
e sempre jogam,
não volta.




Tela 24

A mulher está dizendo
para o marido
que cortar tantas árvores
não presta.
Ele disse que refloresta.
Ela falou que é o mesmo
que matar pessoas
e fazer filhos.




Tela 28

Ele está metade inteiro
e metade em decomposição.
Metade morreu primeiro,
metade não.




(do livro O Menos Vendido, Ricardo Silvestrin, Nankin Editorial,, 2006)


Uma música não precisa mais que três minutos.
Um haicai, alguns segundos.
Mas podem durar a vida inteira.
Um filme, duas horas no escuro.
Um romance, muitas noites em claro.
Um quadro o tempo todo.
Até que se canse,
ponha outro em seu lugar.
Uma escultura numa praça,
mesmo com chuva,
mesmo que se mude de cidade,
ela está lá


*


Este poema 
é uma boa chance 
pra você ficar calado. 
Nada soa 
além do silêncio 
desta partitura. 
Uma palavra 
como esta 
dançando 
na sua cabeça. 
Nenhuma outra lei 
além da leitura.




EU

Véu que revela
e oculta
conforme a vontade
do vento.
Sombra do som,
senda no sonho,
aqui se esconde um eu
livre de mim e de você.

Aonde ele vai,
por que ele é assim,
ninguém pode saber.
Um eu em terceira pessoa.
Senhor absoluto
da sua casa de papel.


*


o corpo nomeado e dissecado pelo anatomista
o sexo com luvas de borracha do ginecologista
o corpo loteado e tabelado pela prostituta
o sexo à espera no banco de espermas
o corpo sem o dono no sono
o sexo sem nexo do sonho
o corpo sem sentido do morto
o sexo solitário do rato no laboratório






o que nasce
da terra
o que nasce
do bicho
o que nasce 
da cabeça do homem

o que vem e floresce
o que nasce, chora, cresce
o que nasce de ferro, de plástico, de cobre, de borracha, de papel
o que nasce do pincel
o que não é ave e voa no céu
o que ainda não nasceu
mais leão que o leão
mais flor que a flor
mais homem que o homem
o que nasce da cabeça do homem



Sobre o Livro de Ricardo Silvestrin: “O Menos Vendido”(Poemas).

Por Armindo Trevisan

Um dos maiores prazeres literários consiste em descobrir um verdadeiro poeta e, de quebra, um poeta verdadeiro.

Verdadeiro poeta é quem escreve poemas que são poesia.

Tal descoberta, hoje em dia, é rara. Já era rara no tempo de Homero e Virgílio! Com o surgimento da mídia, tornou raríssima.

Compor poemas virou algo tão insólito como formular a Teoria da Relatividade na bagunça de um comício, ou apertar a mão de Fernando Pessoa no interior de uma discoteca praiana.

Pode-se, porém, indagar:

- Quem deve ser qualificado de Poeta verdadeiro?

A resposta é uma só: quem escreve poemas, a partir de si mesmo, e da nação, ou povo, com o qual está identificado - poemas que possuam autêntico conteúdo existencial, e uma forma poética não só não decalcada em modelos ultrapassados, como também criativa.

Poeta verdadeiro é quem se esforça por chegar ao homem - o homem concreto que subjaz a qualquer animal racional.       

Que o homem seja um substantivo concreto, basta vê-lo comendo um cachorro-quente, na rua, a mostarda a cair-lhe pela boca. Que a natureza humana seja, em geral, substantivo abstrato, basta deter-se num dos tantos discursos demagógicos, ou numa efusão televisiva, na qual é exaltada como detentora de Direitos Humanos (“desde a Revolução Francesa.”, acrescentam os mais cultos).

Ricardo Silvestrin é, inegavelmente, um verdadeiro poeta.

Um verdadeiro poeta contemporâneo, com suas qualidades e, às vezes, suas idiossincrasias.

É natural, pois, que, na condição de poeta contemporâneo, principie seus versos, perguntando-se: O que é a Poesia?

No início de O Mais Vendido topamos com essa questão.

Para deleite do leitor, o poeta não tergiversa, nem se aproveita da situação para dizer que a poesia não é um sorvete, passando a descrever o último sorvete que comeu.

O poeta aborda a questão a peito descoberto:

Este poema
é uma boa chance
pra você ficar calado.
        Nada soa
além do silêncio
desta partitura.
Uma palavra como esta
dançando
na sua cabeça.
Nenhuma outra lei
além de leitura.(p. 12).

Convenhamos: é uma aproximação honesta, e competente, da Poesia.

Um pouco adiante, o poeta retoma o mesmo tema, como um grand seigneur:

Cansei de abrir
o murro a murros

estendo as mãos
     esfoladas
pra quem me leva
a um lugar mais seguro

cansei de ir sozinho
achando os interruptores
             no escuro

      aguardo, paciente
pra voar com um bando
             de gente.

Tudo isso, com rimas!


Sem aporrinhar o leitor com triviais aliterações.

O ponto mais alto, porém, Silvestrin o atinge no seguinte poema, que nos compensa de tantos pseudo-poemas a respeito da fatigada Poesia:


Não vá esquecer este poema
como se esquecem os nomes
um encontro
o número de telefone
não vá esquecer
e tudo é esquecimento
(exceto o que pulsa
o que impulsiona pra frente)
leve este poema consigo
guarde na carteira
cole no espelho
a gente nunca sabe
quando vai precisar de um poema.


Quase teria preferido que o poeta ficasse apenas com o contundente fecho desse poema, de uma veracidade memorável:

A gente nunca sabe
quando vai precisar de um poema.

Está tudo dito.


Um poeta, capaz de refletir com tal profundidade e agudeza, e que também sente o que refletiu, como um arranhão na pele, é verdadeiro poeta, na mais rigorosa acepção da palavra.

Mas onde fica o poeta verdadeiro?

O poeta verdadeiro não trapaceia sobre si mesmo, nem usa máscaras, nem mesmo contra os gases da publicidade. Tampouco se embriaga com os elogios falsos de amigos e, principalmente, de seus inimigos.
Um poeta verdadeiro é quem se olha no espelho, e faz a pergunta que Cecília Meireles, há muito tempo, e que deverá ser feita sempre:

Em que espelho ficou perdida
      a minha face?

      (Poema “Retrato”. In: Viagem. 1938).

Supõe-se que, após essa pergunta, o poeta saia ao encalço de sua face, ou, de suas faces, em todos os espelhos do mundo.

É aqui que o respeito e a admiração, que dedicamos ao poeta Silvestrin, impõem-nos a obrigação de chamar a atenção dos leitores para uma bipolaridade que existe em sua obra:

1. Na primeira parte do livro: Manchas, que vai até à página 156, onde se encontra o poema Teixeira, existe “um” poeta. Chamemos-lhe o poeta essencial.

Depois da página 157, onde o leitor encontra o seguinte poema:


- Muito bem, confessa!
      Quem é esse Manuel Bandeira?
      Faz avião no Morro da Cruz?
      Aos costumes, Teixeira!


encontramos  o outro poeta, o poeta que se dispõe a pagar pedágio a Osvald de Andrade, e aos que cultivaram, e cultivam ainda hoje, o poema-piada.

Explico-me:

A partir de Quieto no meu Canto, II Parte do Livro, Ricardo Silvestrin torna-se um poeta versátil.

Que me seja perdoada esta objeção.

Vou mais longe: até então, o poeta apresentava-se como uma espécie de discípulo de Sócrates. Alguém que não receava jogar água fria no próprio rosto, para poder despertar melhor, alguém que, para chegar à total lucidez, alijava de si todas as máscaras, que a sociedade e a própria linguagem atam ao rosto de cada um de nós. Um gaúcho urbano, enfim, sem poncho, mas de faca na bota diante da Morte que, como dizia Albert Camus, transforma a vida de um homem em destino.

A partir da segunda parte, porém, embora não se desfaça a identidade do poeta, ei-lo que surge com outro rosto (ou outra máscara?). É alguém que se despe para ser uma espécie de Diógenes contemporâneo, exposto à geada de uma metrópole estadual no inverno, ou ao esturricante sol de um verão em Capão da Canoa.

Silvestrin assume-se - e quer ser - um cínico, no melhor sentido da palavra.

Um cínico?

Sim, um filósofo transbordante de ironia e sátira.

O poeta se converte no que a maioria dos poetas contemporâneos aparentam ser, ou até desejam ser: porta-vozes das gerações mais novas, mais rebeldes, mais-pós-Maio-de 68.

Os poetas acabam tornando-se ironistas, denunciadores de todas as hipocrisias, mestres na arte do debocha elegante.

Será bom isso?
Será menos poético?
Não sei.

Silvestrin é um poeta das novas gerações, e estas têm os seus valores, suas referências, seus gurus.

São poetas que, até certo ponto, adotaram o “Plano-Piloto para Poesia Concreta”, do qual derivaram várias correntes, os promotores da Poesia-Práxis, ao qual se juntaram, com o tempo, membros de diferentes grupos, como Tendência, Ptyx , Vereda, entre os quais, Noigrandes, e a Geração da Poesia do Mimeógrafo.

Ninguém está proibido de gostar desses poetas. Pelo contrário. Não deixamos de apreciar determinados praticantes de todo tipo de haikais, e modalidades verbi-voco-visuais.

Para dizer a verdade, também respeitamos o Concretismo, e correntes assemelhadas, mais por aquilo que se propuseram a realizar, do que pelo que realizaram. Seus estímulos à construção do poema, sua maior atenção à elaboração do verso, ao aproveitamento do espaço gráfico do poema, merecem ser revistos, e retomados.

Mas não estamos aqui para discutir teorias, e sim para valorizar um poeta excepcionalmente talentoso.

Sigamos.

Se, na primeira parte de O Menos Vendido, o autor abordava questões relativas à sua condição intransferível de poeta, à sua metafísica ou existencialidade, no restante do livro, ele preferiu adotar variados pontos-de-vista, e até outro tom, o da flagelação dos lugares-comuns, dos mitos sociais, das niñerias e naderías do cotidiano, aos desmandos do universo do Consumo, enfim, uma destruição em regra das falsas coroas da Globalização.

O lirismo introspectivo, que predominava na primeira parte, passa a ser um divertissement à moda beatnik, um jogo, meio-sério, meio-jocoso, de esgrima com a própria Morte.

Antes, porém, de penetrarmos nesse território, fixemo-nos nalguns poemas notáveis da primeira parte:


Um poema sobre a contingência, ou sobre a efemeridade da existência:

A rocha é frágil diante do raio
A cidade, diante do terremoto
O corpo diante da bala
      A pessoa diante da fala
O amor diante da morte

A rocha é forte diante do corpo
A pessoa, diante da avenca,
      O amor diante de tudo
Menos da morte

A morte é forte diante da vida
A vida é frágil do elefante à formiga.

(Ibid. p.37).

O poema recém-citado pode ser associado a outro poema, que parece ser sua origem:

Um gato morto na rua de chão batido
           as moscas entram e saem
           pelos seus ouvidos
     estou ali olhando
     desde criança.

(Ibid. p. 44).

Vejamos outras composições sobre a mesma temática:

A morte sempre foi assim
só não tinham contado para mim.

também nem precisava:
era só olhar a folha suicida,
o assassinato das formigas,
              o sol todo dia
ensinando a despedida.

O médico balança a cabeça,
o armador faz o seu preço,
o coveiro espera por outro.

    A morte sempre foi o fim.
    Eu é que me fingia de morto.

(Ibid. p. 54).

Não raro, o poeta oculta as unhas, como um felino cansado. Mostra-se delicadíssimo:

Esta música
me leva a um bar
de dez anos atrás.
Lá vou eu girando,
       dançando
com as roupas da moda
de dez anos atrás.
Túnel do tempo,
vida no além,
o que foi continua pulsando
mesmo depois de morto.

Se a alma é música
quem precisa de corpo?

(Ib. p. 41).

Viremos a página.

É já hora de cumprimentarmos esse mini-Diógenes de nossa poesia.

Não há dúvida, de que o espírito de Leminski continua vivo, saçaricando por aí, em todos os bares onde se reúnem os poetas irritados com o bom-comportamento da literatura tradicional, ou simplesmente, da literatura oficial e oficiosa.

Demos um exemplo da veia desse poeta remanchador (Cf. p. 161), de sua lixa, de sua pedra-de-amolar (p. 163) do você disse uma coisa, você entendeu outra (p. 173):

Já está claro
a tecnologia
não cria um novo homem
nem a política
nem a utopia
é tudo quinquilharia
a preços promocionais
o novo homem
é um papo furado
de um século atrás,

(p. 178).


Se o Homem do Tonel passasse por Porto Alegre, iria, sem dúvida, convidar o Silvestrin para tomar um chope com ele!

O seguinte, que vamos reproduzir, seria aplaudido pelo corrosivo filósofo de Atenas, talvez num café da Rua Padre Chagas, ou num botequim da Vila Restinga:


Caiu o muro de Berlim
E o socialismo veio abaixo
Caíram as torres gêmeas
E o capitalismo foi pra cima

(p. 179).

Dando um passo à frente, o poeta cai no deboche. Vejam:


Em síntese
só a tese
e a antítese.

(Ibid. p. 180).


Prestem atenção:

o poema unilinear, que vocês vão ler agora, poderia servir de mote a algumas oficinas :


Escrevendo, escreouvindo, escrelendo

(Ib. p. 185)

Em passant, Silvestrin menciona alguns de seus inspiradores, como Paul McCartney, e outros. Tiremos-lhe o chapéu: merecem seus cumprimentos!

De repente, porém, ele resolve montar uma bomba-relógio (do mais elegante estilo), a ser explodida num happy-hour de executivos e publicitários porto-alegrenses, em legítima defesa de férias:


Macacos agradam
mas não venham bancar o ancestral

são bichos que pulam
      com cara risonha
mas devem conservar o ar de idiota

se alguém veio deles
foi o próprio Darwin

(Ib. p. 196).


A caçoada tem sua razão de ser, ainda mais numa época de best-sellers de cientistas e pseudo-cientistas. Quanto a nós, não endossamos totalmente essa convicção do divertido poeta. Um puxão de orelhas à sobranceria dos top-models da sobranceria científica bastaria para tornar recomendável o poema de Silvestrin!

Que dizer, porém, do poeta quando, não só dá um beliscão nos convencionalismos roçagantes de nossa Society-Fashion, mas os esfrega com um pouco de bombril?


Estamos rodeados de gente chata
para quem temos que dizer
sim ,claro, pois não

(p. 199);


Não pensem que o Ricardo Silvestrin põe banca, tem pose, ou parece olha as pessoas por cima do ombro!

Nada disso!

Ele anda de havaianas, como todo o mundo, e é capaz de auto-poetizar-se com o rigor de um faquir:


Auto-biografia precoce

Minha vida
é uma obra
de ficção
qualquer semelhança
comigo mesmo
terá sido mera coincidência.

(Ib. p. 202).


Agora, porém, rogo-lhes a máxima atenção.

Em dois momentos, em que a mordacidade de Silvestrin cede lugar à ternura, o poeta atinge as culminâncias do lirismo, um lirismo primoroso, excepcional, ainda que exija dos leitores quase um paroxismo de finesse:


A)

Essa mulher tem tudo
tem forma e conteúdo
       não é flor
     a flor é frágil
falta à flor a fala
não é princesa
          nem rainha
essa mulher é minha.

B)

Xangri-lá é o paraíso.
Um hotel, uma cama de casal,
eu e minha esposa.
Chegamos de improviso,
Sem malas.
O porteiro não disse,
mas pensou que éramos amantes.
Acertou.


Concluamos esse breve ensaio, transcrevendo um poema (que, de resto, assinalei com três asteriscos já na minha primeira leitura):


Ninguém está a salvo da tristeza
no horizonte nuvens negras
ventos anunciam confusão
mesmo na alma mais ensolarada
nem o rei do que quer que seja
do alto do seu trono de alegria
           servos devotados
em fazê-lo sorrir cinco vezes por dia
   nem o mestre mais desapegado
            quando vê está triste
como um corvo num galho seco
           contra o céu cinza

(p. 217).


Caros amigos:

enquanto - no Rio Grande do Sul e no Brasil - surgirem poetas que escrevam assim, a poesia continuará a rir-se nos páramos celestes, e também cá embaixo, em nossos pampas batidos pelo minuano, ou em nossas cidades atravancadas de carros, na companhia da Beatriz de Dante, da Laura de Petrarca, e até da Mãe-Menininha do Gantois.



(do livro Palavra Mágica,  Ricardo Silvestrin, IEL/Massao Ohno, 1995, reeditado em e-book pela Dublinense em 2015)



não quero mais de um poeta
que a sua letra
palavra presa na página
borboleta
nem quero saber da sua vida
da verdade que nunca foi dita
mesmo por ele
que tudo que viveu duvida
não revirem a sua cova
o seu arquivo
é no seu livro que o poeta está enterrado
vivo


*


palavra não é coisa
que se diga
quem toma a palavra
pela coisa
diz palavra com palavra
mas não diz coisa com coisa
a palavra pode ser pesada
a coisa, leve
e vice-versa não é coisa alguma
a palavra coisa
não é a coisa palavra
palavra e coisa
jamais serão a mesma coisa



*


velhinha na janela
todo mundo que passa
é visita pra ela



*


um dia o espelho
me devolverá um velho
tomara que eu valha
o tempo que o tempo
levou no trabalho
de esculpir a minha cara

um dia o espelho
me devolverá o vazio
quem sabe eu já esteja
morrendo de frio
e quem chegar perto
pra ver se respiro
vai ver pelas marcas
que virei um vampiro




(do livro Quase eu,  Ricardo Silvestrin, SMC/Poa, 1992, reeditado em e-book pela Dublinense em 2015)



o goleiro vê o jogo ao contrário
o número um que ele carrega
não é de primeiro, mas de solitário

o gol que não houve, a bola na trave
ou presa entre as asas do seu vôo de ave
são pontos a mais no seu placar tonto

seu companheiro, o goleiro adversário
com quem trama o escore ideal
zero a zero do começo ao final



*


sonho que é sonho
não é bonito nem feio
sonho começa e termina
no meio
quem entra em cena
não tem compromisso
é trocado por outro
toma chá de sumiço
o que acontece
logo se esquece
e o sonho muda de assunto
mata quem é vivo
rescussita defunto
sonho é obra de arte
sem cópia, aberta
e na melhor parte se desperta
sonho é prosa de vanguarda
multi-história
que só se guarda
na precária memória



*


algo que mora
entre o aqui
e o agora

cosa ciosa 
das suas coisas
silenciosa

alguma alma
um quase eu
que não demora




*

não mais que a beleza de um artista
que faz o que quer porque sabe fazer
o que quer

não mais que a indiferença do tempo
transformando tudo em passado
até a grandeza

não mais que o afeto por coisas
idéias bichos pessoas
dado de graça

não mais que o ficar em silêncio
na beira da praia
com os olhos abertos

não mais que o respeito pela palavra
mesmo que ela seja usada contra você
e é



*



a fera do tempo nunca se sacia
tudo se perde, se cria
e nada muda o seu movimento
almas, ânimos, sinas
da minha cara ao que ninguém imagina
o que sobra é esse momento
joguem-se os relógios ao vento
queimem-se os calendários
o tempo não mais se conta
a fera que ande às tontas




De  ex,Peri,mental  (Porto Alegre: Editora ameopoema, 2004)



Uma concepção leiga do amor.
Tesão
é febre,
a fúria do corpo,
pedagogia da expressão.
Previsões para hoje:
aventuras,
ofertas,
andar po aí,
abraçar e acariciar todas as pessoas.
Vida íntima:
onde termina avagina?
o que mantém úmida a vagina?
Uma relação madura e equilibrada,
o último homem,
perfil de um gigante.
Orgasmo da mulher:
a estupenda noite de catch-as-catch-can.
Frases.
Cigarro.
Sexualidade:
o único pecado que existe.
Aqui pra vocês, ó!


*


É o seguinte:
falar ou não falar.
Tudo o que fizemos,
espaço para nanicos,
a biografia como gênero,
a grafia de um nome,
esconde-esconde,
arte abstrata,
símbolo,
aparas do tempo,
poesia da dispersão.
A nossa voz,
conceito de preservação,
pensava que fosse um chapéu.
Balanço final:
leves sinais de vida,
ainda é tempo,
eu tenho vontade


*


E ele diz:
Tudo é história.
Idéia de uma história universal
de um ponto de vista cosmopolita.
Põe na conta.
Agora é que são elas:
sobre a poesia,
origem do drama,
amor sublime:
com os meus olhos de cão,
o azul do céu
só tem novidades.


*


Que horas são?
No cenário da cidade
a lâmpada, corcundas, o cisne afogado.
A primeira experiência muitas vezes
rompendo com o drama do homem.
A gente ainda não sabia o baú,
a origem, a biblioteca.
O menino.
O flautista.
E vice-versa.


*


Lição de anatomia.
Trancados à chave,
A paixão é a pior armadilha.
Não é à toa que todo mundo quer.
Como remar contra a maré.
O sol e as sombras,
O tudo-ou-nada,
Voar sem escalas,
Memórias sob as asas.
Céu azul. A polícia,
Cadê a polícia?
Com tanto riso e tanta alegria toda a cidade vai cair na folia.
Norte e sul são dois antípodas.




Bashô um santo em mim (haicais) (Ed. Tchê, 1988)


sol no seu rosto
a ave da dúvida
manchas de sol


*


céu nublado
o letreiro pisca
pra nenhuma estrela


*


oswald
pôs o pau
brasil pra fora



*


porta da escola
eu sentado
dentro de mim


*


banco da praça
os seios
e os receios da namorada





LOS SERES TROCK
(Topito Ediciones,Montevidéu, 2013, Prêmio do Fundo Nacional de Cultura do MEC/Uruguai, edição bilingue, ilustração de Gonzalo Firpo, tradução de Ignacio Fernández)



Dagastrock y las gomitas de pelo

Cuidado, gurisa,
nunca dejes una gomita de pelo
abandonada por ahí.
Encima del armario,
sobre la cama,
en la pileta.
Dagastrock vive sólo
de comer gomitas de pelo.
¿Dónde está aquella roja
con rayas blancas?
¿Y la color de rosa
con una bola en la punta?
Que no te tomen por tonta.


Dagatrock e os rabicós 

Cuidado, menina,
nunca deixe um rabicó
dando sopa.
Em cima do armário,
sobre a cama,
na pia.
Dagastrock vive só
de comer rabicó.
Cadê aquele vermelho
com listras brancas?
E o cor-de-rosa
com uma bola na ponta?
Não banque mais a tonta.








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