viernes, 14 de octubre de 2016

EVERARDO NORÕES [19.282]

Foto: David Sánchez Moyano

Everardo Norões 

José Everardo Arraes de Alencar Norões – Nacido en Crato, Ceará, Brasil, 1944. Economista, poeta, narrador, traductor, dramaturgo y crítico literario. Se exilió por cuestiones políticas y vivió en Francia, Argelia y Mozambique. Al regresar a su país publicó Poemas Argelinos (1981). Más tarde aparecieron Poemas (2000); Nas entrelinhas do Mundo (2002); A Rua do Padre Inglês (2006); Retábulo de Jerônimo Bosch (2009), Poeiras na Réstia (2010) y ‘Melhores mangas’ (2015). Como narrador es autor de O fabricante de histórias, premio Concultura, Manaus, en 2012, y Entre moscas, de 2013, que obtuvo el prestigioso premio Portugal Telecom de la Lengua Portuguesa en 2014. Norões también es colaborador habitual de los diarios brasileños, escribiendo artículos y crónicas.

Obras

Poesias

Poemas argelinos (1981)
Poemas (2000)
A rua do padre inglês (2006)
Retábulo de Jerônimo Bosch (2008)
Poeiras na réstia (2010)
W. B. & os dez caminhos da cruz (2012)

Crônicas

Nas entrelinhas do mundo (2002), em co-autoria com Abelardo Baltar

Contos

O fabricante de histórias (2011)
Entre moscas (2013)

Prêmios

Prêmio Arthur Engrácio (2011): por O fabricante de histórias
Prêmio Portugal Telecom de Literatura, na categoria contos e crônicas (2014): por Entre moscas
Finalista do 56 º Prêmio Jabuti, na categoria contos e crônicas (2014): por Entre moscas



EN ARGEL (DE NUEVO)

La cueva.
El azul cobalto
disipándose en la bahía.
El montón de cubos blancos en la colina:
una tetera goteando la tristeza
en la taza de té.
Solo,
en camino a Belouizdad:
desvariando al Sol
-Astro y Navío-.
Ni viento ni molinos
ante esas fachadas blancas,
esas puertas y ventanas azules
a la espera del siroco
o de la primera estrella
del Ramadán.
Nadie de entonces, ni los compases
del noubet essoltane,
la suite del sultán,
ni los turcos del Bey.
Sólo:
recuerda el pan ázimo donde
doblaba su remordimiento.
Y el pañuelo,
entre unos delgados dedos,
recitando entre las rejas
 la última sura
del deseo.



EM ARGEL (DE NOVO)

A gruta.
O azul cobalto
despejandose na baía.
O amontoado de cubos brancos na colina:
um bule a escorrer a tristeza
na xícara de chá.
Sozinho,
a caminho de Belouizdad:
a desconversar o Sol
– Astro e Navio -.
Nem vento, nem moinhos,
frente a essas fachadas brancas,
essas portas e janelas azuis
à espera do siroco
ou da primeira estrela
do Ramadã.
Ninguém de antanho,
nem os compassos
do noubet essoltane,
a suíte do sultão,
nem os turcos do Bey.
Sozinho:
lembra o pão ázimo onde
debruçava seu remorso.
E o lenço,
entre uns dedos finos,
a recitar  entre as grades
a última surata
do desejo.



SOBREVOLANDO COLOMBIA

Diez mil metros de altitud
es
la mínima distancia
para convocar a los muertos,
acompañar el regimiento de cadáveres
flotando
en el río magdalena.
Diez mil metros de altitud
es la mínima distancia
para observarlos desaguando
hechos troncos
de una selva muda.
Diez mil metros,
mínima altitud para sentir
la sombra metálica de las estrellas
hiriendo la selva
y el paso de las nubes
atropellando
nuestra indiferencia.



sobrevoando colômbia: 

dez mil metros de altitude/ é/ a mínima distancia/ para convocar os mortos,/ acompanhar o regimento de cadáveres/ a boiarem/ no rio magdalena./ dez mil metros de altitude/ é mínima distancia/ para observá-lo desaguando/ feito troncos/ de uma floresta muda./ dez mil metros,/ mínima altitude para sentir/ a sombra metálica das estrelas/ a ferir a floresta/ e o passar das nuvens/ atropelar/ nosso descaso.



PIENSO EN EL CUERPO

Pienso en el cuerpo:
rutina del agua:
tejiéndonos emboscadas:
juego de fuentes:
chorreándose:
al gusto del sol:
o de la luna  quién sabe:
en su conjunción:
con cualquier astro :
deslizándose en el firmamento:
de tu galaxia:


penso no corpo: 

penso o corpo:/ rotina de agua:/ a nos tecer escaramuças:/ jogo de fontes:/ a se esguicharem:/ ao sabor do sol:/ ou da lua quem sabe:/ na sua conjunção:/ com qualquer astro:/ a deslizar no firmamento:/ de tua galáxia:



DESCUBRIMIENTO

Otra vez me pertenezco
como el agua del sueño
en el ácido
que lava el barro de las calles.
Vigilo el desuso
de las cosas rutinarias,
espero el paso de los escarabajos
Sé:
si vuelan rápido
anuncian la lluvia.


Descoberta: 

De novo me pertenço/ como a água do sonho/ no ácido/ que lava o lodo das calçadas./ Velo o desuso/ das coisas rotineiras,/ acalento o percurso dos besouros/ Sei:/  ao voarem depressa/ anunciam a chuva.



S.

Observo la ciudad
como sustancia
de anotaciones musicales:
armonía celebrando
el pacto de la piedra y del viento,
luz sangrando entre
arabescos de hormigón.
Como si dijese:
soy el lugar del hombre.
Y la imagina
cortada en avenidas
por donde debería pasar
el pan cotidiano de la alegría.
Sin el batallón sagrado
de Tebas,
pone rostro a los que traicionaron a la ciudad.
Solo dice:
Soy el río y la orilla
de vuestros pies.


S.: 

Olhou a cidade/ como substância/ de anotações musicais:/ harmonia a celebrar/ o pacto da pedra e do vento,/ luz sangrando entre/ arabescos do concreto./ Como se dissesse:/ sou o lugar do homem./ E imaginou-se/ cortado em avenidas,/ por onde deveria pasar/ o pão cotidiano da alegria./ Sem o batalhão sagrado/ de Tebas/ fez face aos que traíram a cidade./ Disse apenas:/ Sou o rio e a margen/ a vossos pés.



ABECEDARIO

la letra A
debería recordar
a Aladino y a su lámpara
abriendo puertas de la gramática:
el genio solícito
transformando en diversión
el análisis sintáctico.
la letra B
podría ser un Bosque
y su camino encendido
sus frutas amarillas escarlatas
de los árboles del pensamiento.
la letra C
abierta como Cuaderno
donde dormirían palabras
acentos y hasta el silencio
cuando
se liberara
de la lista.


Abecedario: 

a letra A/ deveria lembrar/ Aladim e sua lâmpada/ abrindo portas da gramática:/ o gênio solícito/ transformando em brinquedo/ a análise sintática./ a letra B/ poderia ser um Bosque/ e o seu caminho aceso/ suas frutas amarelas escarlates/ das árvores do pensamento./ a letra C/ aberta como caderno/ onde adormeceriam palabras/ acentos e até o silêncio/ de quando/ se libertaria/ da pauta./



FRACTALES

Por lo profundo
de las sombras
calculo el itinerario de la luz.
Mido
los contornos de nuestras ruinas
en la matemática particular de las angustias.
Abro la ventana
de la página del sueño:

deletreo despacio el Aywu rapitá:
el ser del ser de la palabra
(flor pronunciada
entre las estrellas).
La noche se desploma
sobre el tejado
en la explosión de un meteoro.
Cuento fragmentos,
reordeno parábolas:
una porción de los que soy
recuerda las fronteras
del Universo.


Fractais: 

Pelo mergulho/ das sombras/ calculo o itinerário da luz./ Meço/ os contornos de nossas ruínas/ na matemática particular/  dos desesperos./ Abro a janela/ sa página do sonho:/

Soletro devagar, o Aywu  rapitá:/ o ser do ser da palabra/ (flor pronunciada/ entre as estrelas.)// A noite/ desaba sobre as telhas/ na explosão de um meteoro./ Conto estilhaços,/ recomponho parábolas:/ um mínimo do que sou/ lembra as fronteiras/ do Universo.



CORPO

Teu corpo
se enxuga em minha água:
calafeta,
enxágua.
Completa
o que não vem de mim.
E por ser água e calma,
sonâmbula
como a
distraída voz do lume,
lembra um vago perfume
de jasmim.


CAFÉ

Desencarno arábias 
de uma xícara morna 
de café.
E um fio negro 
me assedia a boca.

(Através da janela 
o galho de pitanga 
ostenta seu adorno 
encarnado).

Viajo
pelo negror do pó:
Dar-El-Salam,
Bombaim,
Áden
(sem Nizan, sem Rimbaud):
as colinas ocres,
a poeira dos dias.

De onde vem o grão 
dessa saudade?

Desentranho arábias 
dessa xícara fria. 
Enquanto aguardo o dia 
que não chega.

Desacordo e sorvo
a sombra morna
do que sou
na borra
do café.


OS ENCOURADOS

A tarde chega. 
A luz se dispersa: 
quem anunciará a morte, 
soltará o chicote, 
abrirá a fresta?

Quem domará o espaço 
entre o gume e a alma, 
entre a cerca e a palma, 
entre o assombro e a calma?

E dormirá no cio
de árvores cativas
ao solstício das pedras,
no despencar das sombras?
A tarde chega,
a luz se dispersa.
É uma luz de sede
do sol dos Inhamuns:
branca e calada.

Os encourados se miram 
num horizonte de varas. 
A copa é pequena: 
na redondez dos cabos, 
lâminas severas.

Nem palavras:
o vento soletra a mata,
converte-se em faca.
Sumida nos esteiros,
detida nas vazantes,
segue,
na garupa,
a sina dos instantes.

Adonde vosmecê, 
alumia o sobrosso, 
desmazelo do corpo?

A alma se estropia
nesses retirados
dentro dos Teus lustres...
A tarde chega. 
A luz se dispersa.

E uma luz de sede 
do sol dos Inhamuns: 
branca e calada.

Ponto de cruz ou estrela: 
uma rede bordada.

               De Retábulo de Jerônimo Bosch 





A MÚSICA

                   Para Isaac Duarte

Sem pedir licença,
insinua-se pelos cômodos,
invade os espelhos,
derrama suas jarras de luz.
Vejo-a
pelos canteiros da casa,
na nitidez dos bordados
de minha mãe,
no brilhar de tua íris
quando os deuses descem
para beber a insensatez
das águas.
Depois,
ela se transforma em seios,
goiabas,
espigas.
E nua, adormece,
enquanto a lua brinca
entre meus dedos
e lagartixas
passeiam pelas pedras do pátio...


A RUA DO PADRE INGLÊS

Na rua do Padre Inglês
um louco joga xadrez.

Joga o xadrez da desgraça: 
uma sombra na vidraça 
é o seu parceiro demente.

(Entre a dama e o cavalo, 
corre um rio de afogados).

De sua cama, ainda quente, 
um bafo de nicotina. 
Vem um cheiro de latrina 
da cela defronte à sua.

Na rua do Padre Inglês
um louco fala francês
com acentos de Baudelaire...

(O flamboyant encarnado 
se mistura ao espetáculo 
da esquizofrênica rua).

O bispo toma o cavalo 
das mãos da dama de preto. 
(São cinco horas da tarde: 
as luzes se apagam cedo.)

Batente do meio-fio:
vem vindo a sombra da noiva,
sozinha, morta de medo.

(O louco avista das grades
as andorinhas azuis
que voam feito morcegos.)

Na rua do Padre Inglês, 
um cheiro de gasolina.

{O louco engendra seu mate 
contra a sombra na vidraça.}

São cinco em ponto da tarde 
(cinco de Ignacio Mejías, 
pensa o louco em sua cela) 
— dos girassóis de Van Gogh 
à solidão amarela...

O cavalo solta as crinas, 
a noiva voa na rua 
e nas vozes de um menino 
acordes de um violino.

O louco sabe que o tempo 
de dormir já vem chegando...

(Corujas soltas na cela 
bicam as flores de papel 
e uma boneca de pano).

Corre, corre, vem depressa, 
Que a noite já vem chegando!

Na rua do Padre Inglês 
um louco joga xadrez...


TRISTÃO 

             Em pé, ao sol e ao vento do sertão, 
             ele não se decompôs.
                         Pedro Nava (Baú de Ossos)

As palavras no alforje. E o rosário, 
a escorrer das penas e dos dias. 
O azul da barba lembra uma paisagem 
onde campeiam cabras. E ramagens 
desatam-se em sombras nas janelas. 
A morrinha dos bichos. O mormaço, 
trazendo o desespero, em vez de março: 
um luto atravancando as taramelas. 
A sela desapeada. E na garupa
do cavalo, a sentença das esporas. 
Pendentes dos estribos, estão as horas, 
relampejos de facas. E o sono da jurema.
O braço descarnado, o giz dos dentes, 
e o olho além do corpo do poema. 
No chão do meu degredo, sempre chão, 
sete frases do ofício e um bordão.


SONETO I

Agonizavam os rastros de novembro. 
E os meus ossos, cansados das neblinas, 
doíam, no concerto das esquinas 
da cidade, onde um dia, ainda me lembro,

penetrou-se de escuro a minha alma, 
quando um cão, a ladrar contra o sol-posto, 
mordeu o lado oculto do meu rosto 
e deixou seus sinais à minha palma.

Lembro-me que era de tarde. Ainda chovia. 
O eco dos espelhos conduzia 
meus passos que jaziam pelas ruas.

Havia o som da água que caía. 
E no horizonte, além da agonia, 
um cemitério de meninas nuas.



TUA FALA

Tua fala parecia
uma rede de varandas,
branca,
no meio da sala.

(Uma coisa que envolve
e, ao mesmo tempo, se esquiva):
gesto seco de uma chama,
morrendo,
e sempre mais viva.

Era assim, tua palavra: 
escorreita, sem medida. 
Falas como pés descalços, 
presos à relva macia. 
Ou um cheiro de curral 
quando a manhã principia.

(Tua fala parecia
a rede, toda bordada,
onde a noite amanhecia).

               De A Rua do Padre Inglês (2006)







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