martes, 2 de septiembre de 2014

ASCANIO LOPES QUATORZEVOLTAS [13.147]


Ascanio Lopes Quatorzevoltas 

(Uba, Brasil   11 de mayo de 1906 - Cataguases, 10 de enero de 1929) fue un escritor de Brasil, uno de los más importantes poetas del modernismo minero.

Ascânio Lopes Quatorzevoltas nasceu em Ubá - MG em 11 de maio de 1906. Filho de Antônio Lopes Quatorzevoltas e Maria Inês Quatorzevoltas. Aos cinco meses foi levado para Cataguases, onde foi criado pelos pais adotivos, o tabelião Cornélio Vieira de Freiras e Dulcelina Cruz, vindo a morrer aí em 10 de janeiro de 1929. 
Era um dos integrantes do grupo Verde (1927-29), revista editada em Cataguases entre 1927/29 por Rosário Fusco, Enrique de Rezende, Francisco Inácio Peixoto, Martins Mendes e Guilhermino César, que representou uma das mais importantes vertentes do modernismo fora de São Paulo. Morreu precocemente vítima de tuberculose pulmonar. Cursava o terceiro ano da Faculdade de Direito de Belo Horizonte. 
Um dos poetas mais importantes do modernismo mineiro. Sua poesia, de tom bucólico, evoca a infância, o passado, a vida rural e a mesmice da vida interiorana. Tendo vivido apenas 23 anos, deixou obra pequena, porém representativa, Poemas Cronológicos (1928).
Em 1966, o professor da UFMG Delson Gonçalves Ferreira escreveu: Ascânio Lopes – vida e poesia, um singelo estudo sobre a vida e produção poética de Ascânio, trabalho que mereceu uma nova edição - revista, ampliada e enriquecida de novas apreciações críticas – de autoria de Luiz Ruffato, com o título Ascânio Lopes – todos os possíveis caminhos, resgatando a verdadeira dimensão de um poeta precoce, considerado por muitos críticos como uma promessa do modernismo, tão cedo desaparecido.
Ascânio é o primeiro poeta de Cataguases. Por isto é importante para nós. Renovador na linguagem e na forma. Iniciou com seus amigos da Revista Verde, um contínuo e constante processo de criação literária na cidade. [José Antonio Pereira]





Traducciones: Alberto Acosta


SERÃO DO MENINO POBRE

Na sala pobre da casa da roça
papai lia os jornais atrasados.
Mamãe cerzia minhas meias rasgadas.
A luz frouxa do lampião iluminava a mesa
e deixava nas paredes um bordado de sombras.
Eu ficava a ler um livro de histórias impossíveis
— desde criança fascinou-me o maravilhoso.
Às vezes, Mamãe parava de costurar
— a vista estava cansada, a luz era fraca,
e passava de leve a mão pelos meus cabelos,
numa carícia muda e silenciosa.

Quando Mamãe morreu
o serão ficou triste, a sala vazia.
Papai já não lia os jornais
e ficava a olhar-nos silencioso.
A luz do lampião ficou mais fraca
e havia muito mais sombra pelas paredes...
E, dentro em nós, uma sombra infinitamente
[ maior.






SARAO DEL NIÑO POBRE

En la sala pobre de la casa de campo
papá leía los diarios atrasados.
Mamá zurcía mis medias rasgadas.
La luz tenue del farol iluminaba la mesa
y dejaba en las paredes un bordado de sombras.
Yo me quedaba leyendo un libro de historias imposibles
– desde niño me fascinó lo maravilloso.
A veces, Mamá paraba de coser
– la vista estaba cansada, la luz era débil,
y pasaba suave la mano por mis cabellos,
en una caricia muda y silenciosa.

Cuando Mamá murió
el sarao se quedó triste, la sala vacía.
Papá ya no leía los diarios
y se quedaba mirándonos silencioso.
La luz del farol se volvió más débil
y había mucho más sombra en las paredes...
Y, dentro nuestro, una sombra infinitamente
[ mayor.





CENA DE UMA RUA AFASTADA

Para Martins de Almeida

A solteirona fechou as janelas com estrépito.
Uma mocinha da escola normal passou firme, 
[ sem olhar.
Um senhor gordo disse que era uma pouca
[ vergonha
e que nossa polícia não vigiava os costumes.
Mas, indiferentes aos gritos dos carroceiros,
às pedradas dos garotos,
a lulu de D. Mariquinhas e o fox-terriê 
[ (meio sangue) do sr. Fagundes
continuaram impudicos no meio da rua.





ESCENA DE UNA CALLE LEJANA

Para Martins de Almeida


La solterona cerró las ventanas con estrépito.
Una mocita de escuela normal pasó firme, 
[ sin mirar.
Un señor gordo dijo que era una 
[ desvergonzada
y que nuestra policía no vigilaba las costumbres.
Mas, indiferentes a los gritos de los carroceros,
las pedradas de los muchachos,
la lulú de Don Mariquinhas y el fox-terrier 
[ (media sangre) del Sr. Fagundes
continuaron impúdicos en el medio de la calle.






SANATÓRIO

Logo, quando os corredores ficarem vazios,
e todo o Sanatório adormecer,
a febre dos tísicos entrará no meu quarto
trazida de manso pela mão da noite.

Então minha testa começará a arder,
todo meu corpo magro sofrerá.
E eu rolarei ansiado no leito
com o peito opresso e de garganta seca.

Lá fora haverá um vento mau
e as árvores sacudidas darão medo.
Ah! os meus olhos brilharão procurando
a Morte que quer entrar no meu quarto.

Os meus olhos brilharão como os da fera
que defende a entrada do seu fojo.





SANATORIO

Luego, cuando los corredores queden vacíos,
y todo el Sanatorio adormezca,
la fiebre de los tísicos entrará en mi cuarto
traída mansa por la mano de la noche.

Entonces mi cabeza comenzará a arder,
todo mi cuerpo magro sufrirá.
Y rodaré ansiado en el lecho
con el pecho oprimido y la garganta seca.

Allá afuera habrá un viento malo
y los árboles sacudidos darán miedo.
Ah! mis ojos brillarán procurando
la Muerte que quiere entrar en mi cuarto.

Mis ojos brillarán como los de la fiera
que defiende la entrada de su trampa.






O TECELÃO

A mão do tecelão é leve
e breve, e traça iluminuras
de fios, como riscos
suaves e ligeiros
das aves no ar.

Enquanto outros pensam
Em glórias, desejam
Palácios,
Riquezas,
O tecelão
Sonha com
Teares pujantes e
Tecidos fantásticos.





EL TEJEDOR

La mano del tejedor es leve
y breve, y traza iluminaciones
de hilos, como trazos
suaves y ligeros
de aves en el aire.
Mientras otros piensan
En glorias, desean
Palacios,
Riquezas,
El tejedor
Sueña con 
Telares pujantes y
Tejidos fantásticos.





MINHA NAMORADA

Seu nome era besta e ela também
mas quase não falava e só sabia olhar.
Gostei dela
fiz versos puxados
gastei tempo nas rimas raras
e na colocação de pronomes
porque ela era normalista
e gostava de gramática e não perdoava
[ galicismos.
Mas um dia ela descobriu meus versos modernos
e percebeu que fingia
e gostava de errar nos pronomes
e que meus sonetos eram só pra ela.
Então me deu o fora e arranjou um poeta sincero
que a comparava a Marília
e que sabia de cor a "Ceia dos Cardeais"
e que sapecava todos os ritmos novos
e as poesias sem geometria e compasso.

E ficavam cinicamente amando no portão
quando não iam ao cinema delirar com as fitas 
[ dramáticas italianas 12 atos.
Ela me deu o fora.
Também nunca mais fiz sonetos.





MI ENAMORADA

Su nombre era bestial y ella también
mas casi no hablaba y sólo sabía mirar.
Me gustó 
hice versos extensos
gasté tiempo en las rimas raras
y en la colocación de pronombres
porque ella era normalista
y le gustaba la gramática y no perdonaba
[ galicismos.
Mas un día ella descubrió mis versos modernos
y percibió que fingía
y me gustaba equivocar los pronombres
y que mis sonetos eran sólo para ella.
Entonces me mandó a pasear y se arregló con un poeta sincero
que la comparaba a Marília
y que sabía de memoria la "Cena de los Cardenales"
y que chamuscaba todos los ritmos nuevos
y las poesías sin geometría ni compás.

Y se quedaban cínicamente amándose en el portón
cuando no iban al cine a delirar con las películas 
[ dramáticas italianas de 12 actos.
Ella me mandó a pasear.
Tampoco nunca más hice sonetos.





O CHEFE


O valentão brigou com o chefe político
e então todo mundo se lembrou que ele era
[ criminoso
e veio ordem da Capital para prendê-lo.

Os soldados se prepararam foram 30 jagunços
[ para acompanhá-los.
O escrivão lavrou de véspera o auto de
[ resistência à prisão.
Mas o bandido não resistiu abobado diante dos
[ soldados da Capital.
e entregou-se docilmente.

Mas o chefe disse que era preciso matá-lo
pois o auto já estava lavrado e assinado.

Era impossível voltar atrás.





EL JEFE


El atrevido se peleó con el jefe político
y entonces todo el mundo se acordó que él era
[ un delincuente
y vino la orden de la Capital para apresarlo.

Los soldados se prepararon fueron 30 capangas
[ para acompañarlos.
El escribano labro en la víspera el auto de
[ resistencia a la prisión.
Mas el bandido no resistió pasmado delante de los
[ soldados de la Capital,
y se entregó dócilmente.

Mas el jefe dijo que era preciso matarlo
pues el auto ya estaba labrado y firmado.

Era imposible volver atrás.




CATAGUASES

Para Carlos Drummond de Andrade 

Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais, 
cidade européia de ruas retas, árvores certas, 
casas simétricas, 
crepúsculos bonitos, sempre bonitos; 
Nem Juiz de Fora. Ruído. Rumor. 
Apitos. Klaxons. 
Cidade inglêsa* de céu esfumaçado, cheio de chaminés negras; 
Nem Ouro Prêto, cidade morta, 
Bruges sem Rodenbach, 
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas 
[ que já esquecemos; 
Nem Sabará, cidade relíquia, 
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado 
[ arrumadinho; 
Nem Estrêla do Sul, a sonhar com tesouros, 
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento; 
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não 
[ pretende ficar. 
Nã-o ! Cataguazes... Há coisa mais bela e serena oculta 
[ nos teus flancos. 
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades 
que nunca foram, que não cuidam de ser. 
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que 
[ desejas, o que serás. 
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade... 
Só sei que és 
a mais mineira cidade de Minas Gerais... 
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana 
[ de bangalôs derniecri. 
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de 
muitos hóspedes. 
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem. 
Nem ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada. 
Nem os dísticos de aqui estêve aqui aconteceu. 
Nem o tintim áspero dos padeiros. 
Nem a buzina incômoda dos tintureiros. 
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos, 
os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira). 
Teu amanhecer é suave. 
Que alegria de ter só gente conhecida faz teu habitante voltar-se 
[ para cumprimentar todos que passam. 
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo, esperto 
[ mau, a suspeitar riquezas nas terras. 
Alegria dos Fordes brincando (são dois) na praça. 
(Depois vão dormir juntinhos numa só garagem). 
Jacaré ! 
João Arara! 
João Gostoso ! 
teus tipos populares. 
A criançada atira-lhe pedras e êles se voltam imprecando. 
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo 
[ de veículos, 
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem, 
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político. 
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes 
[ no cinema. 
Ar môrno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra 
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos 
[ passantes 
e batem isócronas nos passeios furados. 
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a apena passar, 
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando. 
Em ti se dorme tranquilo sem guardas-noturnos. 
Mas com o cricri dos grilos, 
o ranram dos sapos, 
o sono é tranquilo como o de uma criança de colo. 
Vale a pena viver em ti. 
Nem inquietude, 
nem pêso inútil de recordações 
Mas confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas, 
nem ficam eternas. 

*o poema aqui reproduzido preserva a ortografia original da época e faz parte do livro Poemas Cronológicos, de 1928.





CATAGUASES

Para Carlos Drummond de Andrade 

Ni Belo Horizonte, colcha de retazos iguales, 
ciudad europea de calles rectas, árboles correctos, 
casas simétricas, 
crepúsculos bonitos, siempre bonitos; 
Ni Juiz de Fora. Ruido. Rumor. 
Pitos. Bocinas. 
Ciudad inglesa de cielo humoso, lleno de chimeneas negras; 
Ni Ouro Prêto, ciudad muerta, 
Brujas sin Rodenbach, 
donde estudiantes pasatistas continúan la tradición de las cosas 
[ que ya olvidamos; 
Ni Sabará, ciudad reliquia, 
donde no se puede tocar, para no derrumbar el pasado 
[ ordenadito; 
Ni Estrêla do Sul, que sueña con tesoros, 
tesoros en los cascajos extintos de su río barroso; 
Ni Uberaba, ni, ni, ciudades arribistas de gente que no 
[ pretende quedarse. 
No-o ! Cataguazes... Hay cosas más bellas y serenas ocultas 
[ en tus flancos. 
En tus calles juega la inconciencia de las ciudades 
que nunca fueron, que no piensan ser. 
No sabes, no sé, nadie comprenderá jamás lo que 
[ deseas, lo que serás. 
No eres del pasado, no eres del futuro; no tienes edad... 
Sólo se que eres 
la más minera ciudad de Minas Gerais... 
Ni geometría, ni estilo europeo, ni invasión americana 
[ de bungalós modernos.
Tus casas son largas casas mineras hechas en previsión de 
muchos huéspedes. 
No hay en ti el terror de las ciudades plantadas en la selva virgen. 
Ni el rugir de los ómnibus atrasados, llenos de gente con prisa. 
Ni los dísticos de aquí estuvo, aquí sucedió. 
Ni el tintín áspero de los panaderos. 
Ni la bocina incómoda de los tintoreros. 
Tus lecheros aún llevan la leche en borricos, 
los panaderos dejan el pan en la ventana (ciudad minera). 
Tu amanecer es suave. 
Qué alegría tener sólo gente conocida, hace que tu habitante se vuelva 
[ a saludar a todos los que pasan.
Delicia de no encontrar extranjeros de mirada aguda, experta 
[ mano, que sospechan riquezas en las tierras. 
Alegía de los Fordes jugando (son dos) en la plaza. 
(Después dormirán juntos en un mismo garaje). 
Jacaré ! 
João Arara! 
João Gostoso ! 
tus tipos populares. 
La muchachada les tira piedras y ellos se vuelven imprecando. 
Rondas alegres de niñas en las calles, por las tardes, sin peligro 
[ de vehículos, 
papagayos que se estorban en los cables de luz, globos que suben, 
fogatas obligatorias en las fiestas de llegada del jefe político. 
Jardines donde niñas ariscas pasean media hora sólo antes 
[ en el cine. 
Aire tibio y sensual de voluptuosidad hermosa que vibra 
en tus tardes lluviosas, cuando las goteras mojan a los 
[ transeúntes 
y golpean isócronas en los paseos frustrados. 
Hay en ti la delicia de la vida que pasa porque vale la pena pasar, 
que pasa sin darse cuenta, sin suponer que se va transformando. 
En ti se duerme tranquilo sin guardias nocturnos. 
Mas con el cricri de los grillos, 
el ranran de los sapos, 
el sueño es tranquilo como el de un niño de pecho. 
Vale la pena vivir en ti. 
Ni inquietud, 
ni peso inútil de recuerdos 
Mas confianza que nace de las cosas que no cambian bruscamente, 
ni permanecen eternas.










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