jueves, 28 de febrero de 2013

MARIA CARPI [9.307]


MARIA CARPI

Nació en Guarapé, Estado do Rio Grande do Sul, BRASIL en 1939. Poeta, Abogada, Magistrada estatal. Reside em Porto Alegre.

PREMIOS RECIBIDOS: 
- Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA) Revelação em Poesia 
(1990) pela obra “Nos Gerais da Dor”; 
- Prêmio Erico Verissimo da Câmara Municipal de Porto Alegre/RS (1991), 
- Prêmio Açorianos de Literatura na categoria poesia pela Secretaria 
Municipal de Cultura de Porto Alegre/RS (1996) pela obra “Os Cantares da 
Semente”; 
- Menção Honrosa no Prêmio Casa de las Américas/Cuba (1999) pelo inédito “As Sombras da Vinha” 
- Finalista do Prêmio Jabuti/2001 da Câmara Brasileira do Livro, categoria 
Poesia, pela obra “A Migalha e a Fome”

BIBLIOGRAFÍA (OBRA INDIVIDUAL): 
- NOS GERAIS DA DOR, 1990. Movimento, Porto Alegre. 
- DESIDERIUM DESIDERAVI, 1991. Movimento, Porto Alegre. 
- VIDÊNCIA E ACASO, 1992. Movimento, Porto Alegre. 
- OS CANTARES DA SEMENTE, 1996. Movimento, Porto Alegre. 
- A MIGALHA E A FOME, 2000. Editora Vozes, Petrópolis/RJ

ANTOLOGÍAS: 
- PEQUENA ANTOLOGIA, 1992. Coleção Petit POA. Secretaria Municipal de Cultura/POA, 199 
- CADERNO DAS ÁGUAS,  WS Editor, Porto Alegre/RS, 1998


Extraídos de
ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA
Org. y traducción de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edción Loiovento, 2001.


EN LO COMÚN DEL DOLOR
POEM a 27

Si un pájaro no tuviese alas,
sería uma bala deflagrada, alta
noche, cirio incendiado, pero un
insustentable sollozo en el mar, si
un pájaro no tuviese alas, se
arrojaría contra la soledad,
contra el peso, contra la losa de
si mismo, hasta que la inmensidad
exiliada estuviera, dentro,
desmedida, revuelta, sin alas.

         Nos Gerais da Dor, 1990.


POEMA 7 DEL CANTO A LA FRUTA
DESIDERIUM DESIDERAVI

Sé con plena exactitud
todo lo que no sé. Amo

con pasión extrema todo
lo que no amé. En vez de

anunciar, voy a cumplir un
rostro en la multitud. Reunirlo.

No como las frutas en um cesto,
pero como las simientes en el fruto.

               Desiderium desideravi, 1991


                                LOS PANES

                   Yo soy hija del interior
                  
                   donde los panes no fermentan
                   con cúmulos del azar,

                   sino con artesanal virtud
                   desde la luz del trigo

                   a la luz del hambre. Donde la
                   harina y el agua están
                  
                   a la flor de piel. Donde no
                   se prepara el grano

                   para la boca, sino que la boca
                   madura para el grano.

                   El trigo de allí no sube,
                   sino que desciende de entre nosotros.

                   El pan de allí no sólo
                   sustenta, sino que profiere

                   la palabra que duerme en el
                   apetito.  El pan escucha.

                                   Videncia e acaso, 1992.
                  


                  POEMA 29 –
                   SIMIENTE EN MI

                   Un hálito de estación fugada,
                   de madurez dejada
                   a la ventana, impone templanza
                   en mí, en igualdad
                   de piel, porque ojos
                   no me vieron, ni manos

                   me cogieron. Las uvas
                   donde el tiempo espuma.

                            Os Cantares da Semente, 1996.



NOS GERAIS DA DOR
POEMA 27

Se um pássaro não tivesse asas,
seria uma bala deflagrada, alta
noite, tocha incendiada, mais um
insutentável soluço no mar, se
um pássaro não tivesse asas, se
arremessaria contra a solidão,
contra o peso, contra a laje de
si mesmo, até que a imensidão
exilada lhe estivesse, dentro,
desmedida, revolta, sem asas.

                   Nos Gerais da Dor, 1990.


POEMA 7 DO CANTO À FRUTA
DESIDERIUM DESERAVI

Sei com exatidão plena
Tudo o que não sei. Amo

com paixão extrema tudo
o que não amei. Em vez de

anunciar, vou cumprir um
rosto na multidão. Reuni-lo.

Não como as frutas num cesto,
Mas como as sementes no fruto.


OS PÃES

Eu sou filha do interior

onde os pães não levedam
com acúmulos do acaso,

mas artesanal virtude
desde a luz do trigo

à luz da fome. Onde a
farinha e a água estão

à flor da pele. Onde não
é o grão que se prepara

para a boca, mas a  boca
que amadurece para o grão.

O trigo dali não sobe,
mas desce-entre-nós.

O pão dali não apenas
sustenta, mas profere

a palavra que dorme na
aparência. O pão escuta.

                                               Videncia e acaso, 1992.


                            POEMA 29 –
                            SEMENTE EM MIM

                            Um bafo de sazão fugada,
                            de madureza deixada
                            a esmo, põe temperança
                            comigo, em igualdade                 
                            de pele, porque olhos
                            não me viram, nem mão

                            me colheram. As uvas
                            onde o tempo espuma.

                                               Os cantares da semente, 1996





CARPI, Maria.  A força de não ter força.  São Paulo: Escraituras Editora, 2003.  109 p.  14x21 cm.  ISBN 85-7531-078-X   Impresso em papel chamois 80g/m2. Edior: Raimundo Gadelha.  Capa: Reginaldo Barcellos. Col. A.M. 


Amor, essa fora de não
ter força; essa paz

dando a pez; esse rosto
incandescente, nunca

lido, que se sobrepõe
aos demais e reluta

quando todos fenecem
e mais se aviva, encoberto.






Vou sair de mim, sair
da cidadela do corpo,
sair do corpo do mundo

para entrar. Distancio-me
de onde estou a chegar
perto do amor, onde sou.

Não fui eu a crescer
nessa maré de líquens
e assombro. Outro ser,

como o leito de um rio,
deslocou minhas carnes
e propósitos. Fui-lhe

ventre e sudário. Em mim,
amor morto e amor vivo.
Agora servem-me a ceia.



A LAVOURA DA FOME – poema 10

Não sou eu que tem fome. 
É a fome que me tem. 
Ela me apura, hóstia, em

sua boca. Ela me salitra 
a temperança para devolver-me 
à fermentação, contra a cupidez.

A fome é o meu outro, escumoso. 
Não vim ao mundo para saciá-la, 
mas acendê-la, contra a cupidez.

E da fome me retiro, fatia, 
para que ela seja inteira. 
A fome, contra a cupidez,

também se retira em funduras, 
para que o alimento esplenda 
como um sol saído das vagas.

Não mais o impulso ao avesso, 
não mais a seta e o batimento 
nos ares. Apenas todo o Fruto.

(A Migalha e a Fome)



Maria Carpi vem aí com a obra O CEGO E A NATUREZA MORTA (2016)


SOLAR NATURA ABRUMA

Luiz-Olyntho Telles da Silva

A árvore destila
a terra, gota a gota;
a terra completa
cai, fruto!

Enquanto na ordem
de outro pomar
a atenção destila
palavras maduras.

(João Cabral de Melo Neto, Psi- cologia da composição, VIII.)



Tenho aprendido na literatura que os poetas nos levam a mundos diferentes do nosso cotidiano: seja em outro planeta, noutro continente, em uma ilha perdida, nas nuvens, no cimo de uma montanha, nas entranhas da terra, ou mesmo no número bis de uma rua; em nossos dias, em tempos remotos ou no futuro, a poesia nos dá a presença de um ser, estabelecendo conosco uma intimidade que nos permite uma nova relação simbólica com o mundo. Do enevoado Olimpo, Homero faz descer Atena para provocar a ação dos heróis e, para levar adiante a odisseia, por vezes precisam visitar o Hades. Virgílio leva Dante por todo o Inferno antes de passar ao Purgatório e alcançar as portas do Paraíso, onde o vate das aventuras de Enéas já não pode entrar. Maria Carpi não é infensa a esses movimentos. Sabe da existência do Paraíso e também do ínferos. Seu mundo - tal o de Neruda e outros poetas do mesmo jaez -, é telúrico! A poeta passeia aí por entre as mais profundas e entrelaçadas raízes e alcança as mais elevadas ramagens das árvores sobranceiras, os sicômoros plantados no meio do livro (II, 21), sombreando com sua ampla copa o ambiente ideal para a visão do cego.

Solar natura abruma                                     /Com brio

Ah! Os sicômoros. Os antigos egípcios usavam sua madeira para esculpir estátuas e sarcófagos. Maria Carpi, que não abre mão jamais da presença do outro, faz desses comedores de carne esquifes, como as gôndolas da íris, para navegar no silêncio do próprio velório (III, 21).[1]

[...] Nunca se está
suficientemente no escuro
da existência
[...] ou ausente
na canoa do próprio velório.

Maria Carpi é poeta experiente. Autora de diversos títulos, muitos deles premiados, tem recebido críticas de especialistas de reconhecida magnitude. A da Professora Ely Vietez Lisboa, quiçá a mais recente, em carta dirigida a ela, diz que Maria Carpi, a poeta, não pode ser comparada a ninguém! E é verdade. Autora temática, aqui, como outros, ela enfoca o olhar sobre a natureza, mas com um porém: o olhar que lhe interessa é o da visão sensível do cego e a natureza visitada é a morta! Estamos diante de metáforas místicas, nas quais o transcendente, por meio de um salto qualitativo sobre as coordenadas espaço/tempo, ultrapassa a ótica cognoscitiva.

Se Maria Carpi é incomparável, isso não implica em sua desconexão à poesia universal. Pelo contrário: é sua herdeira! Sem ser mimética, sem adotar o antigo apotegma atribuído a Aristóteles - a arte imita a natureza[2] -, vigente desde Platão até 1800, quando da publicação do prefácio às Baladas Líricas de Wordsworth, sua poesia está sempre embrenhada na natureza. Sem ser romântica, quer dizer, mesmo sem dedicar-se à expressão ou à ficção de sentimentos, como John Stuart Mill definiu esse período, sua poesia está ocupada com as relações amorosas, especialmente com os efeitos da falta. Embora comece, já no poema de abertura, falando em espelhos, Maria Carpi não é exatamente uma moderna, e, nem mesmo sabendo que os espelhos se fragmentam, não é, precisamente, o que se chamaria de uma pós-moderna, pois o reflexo de cada estilhaço refletirá o rosto em sombras (I, 1). A dura superfície do espelho quebra-se à intromissão do outro (I, 35). E depois, ver-se no espelho, seja refletida na face das águas, ou no retrato, não casa com ela (III, 31). Maria Carpi, herdeira da poesia de todos os tempos, usa das mais belas e criativas metáforas para explorar o fenômeno da criação e das relações interpessoais, sempre amorosas. Se ela se vale do recurso do sonho, não é dizendo que a leitura a faz sonhar. Não! É o livro a baixar as pestanas, momento mágico do vaporoso incêndio do topázio da fermentação universal (I, 1). E não é demais lembrar que as origens do topázio estão em uma pequena e antiga ilha do Mar Vermelho, tão difícil de achar quanto as profundas raízes dos nossos sentimentos. Dona de uma poesia sonora, tanto pelas rimas internas quanto externas, seus enjambements têm a qualidade de nos fazer pensar, pelo menos duas vezes. E se ela sabe ser doce, leitora de João Cabral, não abre mão de versos ásperos, tal como ele pretendia alcançar (I, 7).

Solar natura abruma.                                     /Animato
Mas comecemos pelo início. Enigmático, pergunta assim:
Quem via mais?
Antígona que via
por Édipo
ou Édipo que, não vendo,
via o que ela via?

Percebe-se a complexidade! E estamos nas primeiras linhas! Antígona é a guia de Édipo, seu cego pai, mas também seu meio-irmão. Tendo que ver por ele, alienada às necessidades dele, o que vê, para ele, seria o mesmo que veria na soledade, ou mesmo em outra companhia? A charada destaca a presença do outro, o olhar precisa ser compreendido desde uma outra instância, via secundum intelecto. A operação da compreensão não pode ser direta, exige o viés do raciocínio, de preferência apoiado em uma teoria.

O cego e a natureza morta está composto por três cantos: I. As brasas da escuridão; II. Noite em claro; e III. Ausência ardente e a fala feminina. Dos três, só o primeiro tem uma epígrafe, retirada esta de Friedrich Hölderlin:

O rei Édipo tem talvez um olho a mais.

A tradução de Sófocles, feita por Hölderlin, em uma época de valorização da perspicácia e da coragem do herói, embora, por isso mesmo, de reconhecimento tardio, como se lê em suas observações sobre o Édipo[3], possibilitou novas leituras da tragédia: ela capta o temor e o desânimo do herói, fruto de seus pés inseguros. Antígona, sua bengala, é seu olho a mais, como antes o foi Creonte, seu enviado a Delfos. Creonte traz à cena a importância da dúvida: A ameaça da dúvida nos forçava / a pôr de lado as coisas duvidosas / e só pensar em nosso dia a dia.[4] Como se lê, a frase de Hölderlin é forte o suficiente para embasar todo o livro.

Em O cego e a natureza morta, Maria Carpi não teme a dúvida, não quer acabar com ela. Ao contrário, tomando-a como instrumento de trabalho, persegue-a natureza adentro, examinando sempre as múltiplas possibilidades concernentes.

O olho gordo e o olho
que a cegueira curou,
não se defrontam como
se cruzam as lâminas
no escuro de um sol a pino. (I, 35)

O debate nos mostra que a cegueira cantada por Maria Carpi é uma cegueira capaz de curar as deformações enganosas proporcionadas pelo olhar do dia a dia. Curada, ela sabe: Não é o fogo que é lento, lenta é a finitude (I, 1).

Solar natura abruma.                                       /Agitato

No Canto I, As brasas da escuridão, o canto do olhar, a poeta não desdenha a leitura de Aristóteles. Ela conhece as palavras iniciais de sua Metafísica: a vista é o que nos faz adquirir mais conhecimento, nos faz descobrir mais diferenças! Contudo, não se deixa levar pelo prestígio adquirido pela visão em nossa cultura. Tivesse que alinhá-la entre os antigos pensadores, diria de Maria Carpi platônica, pois platônica é sua exigência com as palavras. Platônica, ela vai do eido (eidw) ao eidos (eidoV), do ver, do olhar, à forma exterior dos objetos, geradora da forma mental, da ideia que de um objeto se faz.

Jungido na mesma parelha
da canga do ver, o livro
vai puxando à luz lavradora,
o outono do cego atônito. (I, 15).

E a natureza conformada por esse olhar, já não é a natureza em si kantiana. Ao compreendê-la, ela já está morta. Chega-nos amortecida! Seus contornos tornam-se fluidos, moles como os relógios de Dali e reverberam como o violino e o cântaro de Georges Braque:

O contorno vai além da figura
de uma bandeja em cinzas.
Não é o recipiente que molda
o líquido, a água dá forma
à dolência. E a saliva seca o rosto,
insula, em módulos de cristal. (I, 5)

Para Maria Carpi, como para Claude Lèvi-Straus, real seria o mundo das propriedades matemáticas que só podem ser descobertas pelo intelecto.[5] Em um de seus livros anteriores, O Senhor das Matemáticas, preocupada com o tema, ela já apostara que se pode ver com o perdido olho de Camões[6] e até escrever com a perdida mão de Cervantes. Para ela

A natureza morta não é um
foto plasma, mas uma lentidão
em andamento de mar no frasco
de perfume. [...] (I, 11)

Não posso terminar o Canto I sem falar da generosidade transcendente aos poemas: O cego oferta seu nada a ver [à luz], / pois quem vê, não lhe apetece / os olhos e quem a escuta, / não lhe aguça os frutos (I, 16).

                       [...]. O trato
com o escuro é de enfoque
lento, sussurrante, poeira de astros,
cabisbaixo na estranheza
de um teto celestial rente,
por demais próximo, sem altura. (I, 19)

Não é o homem a alcançar o céu; o céu roça o homem. Mas para isso, talvez seja preciso primeiro subir a montanha. O cego, adepto dos palimpsestos, apaga-se para o surgimento de outra escrita (I, 23).

Solar natura abruma.                                 /Con amore
No Canto II, Noite em claro, como já anunciara em seu segundo poema
Noite alta, eu vi que vias.  

[...]

À frente minha, palpável,
tu vendo, eras-me a luz
escamada. Eis da noz
o miolo. Eis do relâmpago,
as cachoeiras. Sacrário
das noites: eu vi que vias. (I, 2) 

Maria Carpi fala-nos da noite. A cada verso nos faz compreender que seus cegos não são os da parábola pintada por Brueghel. Um cego sabe o quanto a luz / peregrinou em solidão / para tocar sua pele / com o calor de um silêncio (I, 16). Como em Platão, o eidos é o jamais percebido pelos olhos do corpo. Ela sabe que a ideia formada de um objeto é sempre refratada pelo olhar do outro. E cego, o olhar do outro é noite! Nas palavras de Hegel: O homem é esta noite, esse nada vazio que contém tudo em sua simplicidade indivisa. Nas representações fantasmagóricas, tudo é noite. É essa noite que se percebe quando se olha nos olhos de um homem: a noite do mundo.[7]

Para a Poeta, o cego / não tendo nenhuma metáfora / para visualizar o paraíso, quer subir em corpo / e a imaginação não sobe. / Só lhe resta o val da árvore/ e as nervuras do real (II, 5). As nervuras das raízes e das folhas emolduram o Ur da pulsão primitiva que a leva de volta ao Éden, lugar onde se estende a toalha / para pousar o cálice e a migalha (II, 5). O cego, noite em claro de cômoros / ondulosos a não saber-se / onde o pé resvala a encher / a boca de salsugem (II, 12), é Homero, os pés descalços, sonhando à beira mar. Como Homero, atravessando a noite do não-ser, o homem vai tomando consciência de si. A cristalização da infância é igual a morte.

Tinha medo da noite acesa
velando o morto da casa,
aceso na sala, o rosto
amarelando de susto o veleiro
das velas derretidas. (II, 14)

Conforme ela diz no poema II, 16, A ninguém é dado anunciar a luz. O primitivo Vahí Har do Gênese hebraico, o nosso Fiat Lux, precisa ser escutado letra por letra, pois

 [...]. Apesar
de tanto papel e tanta tinta,
e lentes de contato, a escritura
não foi escrita, mas ouvida. (II,16)

É como se houvesse uma verdade à espera de seu desventramento (II, 17), uma vez que atravessar a noite em claro é atravessar as mil e uma noites, enganando a morte a cada descoberta; é como entrar em sombras de olhos abertos, as pupilas nas pontas dos dedos, abrindo-se em hélices para fender o ar e o alarido na ânfora de raízes (II,19), raízes como as hifas filamentosas formadoras do micélio originário dos cogumelos. O Cego de Maria Carpi é como o Inspetor Dupin, de Poe: quando se trata de refletir, prefere o escuro!

Solar natura abruma.                                   /Affettuoso

No Canto III, o último, Ausência ardente e a fala feminina, como um canto de cisne, um hino às relações amorosas, em cujas estrofes o outro é, necessariamente, uma ausência, uma ausência ardente!

Desde que entrei em ausência,
escapa-me a árvore inteira,
a frase inteira, o firmamento
inteiro. (III,2)

Maria Carpi, a la sua maniera, é impressionista! A árvore que lhe escapa pode esconder um violino. Ele está em um armário e nós só vemos as tábuas, e depois só a madeira e, por fim, o violino faz-se ancinho do silêncio (III,17). Como um diapasão, uma corda soa, ao longe, aguda e prolongada, e, num instante, acende-se a vastidão do firmamento (III,19). Ficar ausente de imagens / não é esquecer a paisagem, / mas aguçá-la apagando-lhe / as velhas cores (III.7).

Quando Cèzanne, ao pintar o Mont Saint-Victoire, exclamou: Eu sou a consciência da paisagem que se pensa em mim, não estaria demais imaginar que ele vinha de ler os poemas de Maria Carpi, ainda que ela, das sombreadas manchas solares, busque sempre, em cada ramo, em cada folha, em cada minúscula raiz, as nervuras do real. Nas palavras de Ezra Pound, os homens não se parecem uns com os outros como os botões feitos à máquina, antes diferem entre si como diferem as folhas de uma árvore,[8] e é sobre essas filigranas que a cultura se ramifica natureza adentro. A matéria inerte reverbera conforme as estações da mão escrevente (III,9). Como para Cèzanne, a paisagem não é mais o que ela é e sim o que ele, artista, vê. Descoberta psicanalítica que, se o mundo visto por um nunca é o mesmo visto pelo outro, refração de histórias diversas, ensina que o olhar de um pode ajudar o olhar do outro. Para isso é preciso antes desfazer-se da propriedade do olhar: ainda que cada visão seja única, não pode ser exclusiva! A ausência carpiana é requerida: Entrar em ausência não é de súbito / como não é de súbito anoitecer. / Antes, dedilha-se o crepúsculo / no horizonte (III,9). Um crepúsculo cujas sílabas foram rachadas pelo estridente som do violino, sublinhando a forma dissílaba do amor espelhado em madressilvas (III,18). É o mesmo crepúsculo que vai esmaecendo as cores da Santa Ceia no antigo refeitório da milanesa Santa Maria delle Grazie. Esfumaçadas as figuras, o vinho sorvido não anoitece e as migalhas do pão serão as primeiras molhadas no prato da luz (III,20). A ausência ardente, madura, é a substância da alma, levedo de abstinência (III,22). O amor, latino, é, antes de tudo, reconhecimento; é agradecimento ao outro, marcado sempre por uma distância. O amado que nos alcança / requer não ser arrancado / da ausência (III, 39), pois o sacramento da ausência / ardente, igual ao sacramento / dos santos óleos, é casamento / indissolúvel (III,42).

Assim como a psicanálise não acredita no progresso absoluto, Maria Carpi também sabe que o que se ganha por um lado, perde-se pelo outro. É o que lhe permite afirmar, ainda que usando a forma interrogativa, que não há como hospedar a luz sem aplacar os sonhos (III,38). Note-se que aplacar não é o mesmo que terminar, nem mesmo diminuir, mas antes torná-los mais tranquilos e, eu diria: aplacar um sonho implica em torná-lo capaz de ser interpretado. Em outras palavras, hospedar a luz é poder iluminar os desejos, como a poeta diz, marcados também pela indeterminação da carne (III,38).

Diferente do prático que, tal o padre, não pode estar afastado de sua prática, o poeta, como o oleiro, acaba sua obra e se despede. E a separação pode ser tão dolorosa como entre mãe e filho: embora ambos saibam que só da separação surge a vida, os dois sofrem. Assim, alcançada a última página, a poeta - depois de nos deixar com aquela sensação destacada por Santo Tomás de Aquino, de suas leituras aristotélicas, são belas as coisas cuja apreensão agrada,[9] conforme a expressão avalizada por James Joyce, no seu Caderno de Paris[10] -, dá-nos seu adeus. No seu último poema ela nos diz assim: para carnalizar a ausência / começo a me ausentar. E podemos estar certos: sua ausência, simples eclipse, é promessa de reencarnação em novo poema, em novo livro.

Solar natura abruma (III,20).                  /Vivace assai

Porto Alegre, 11 de março de 2016.

[1] Os números romanos, entre parênteses, representam os Cantos e os ordinais representam os poemas.
[2] Hē tekhnē mimetai tēm physin.
[3] F. Hölderlin. Anmerkungen von Oedipus/Antigone. Frankfurt, Fischer/Pantheon, 1957.
[4] Sófocles. Édipo Rei. Trad. de Geir Campos. São Paulo, Abril Cultural, l976.
[5] C.Lèvi-Strauss. Mito e significado. Lisboa, Edições 70, p.18.
[6] Maria Carpi. O senhor das matemáticas. Porto Alegre, AGE, 2012, p.78.
[7] Kojève. Introduction à la lecture de Hegel. Paris, Gallimard, 1968.
[8] Ezra Pound. A arte da poesia. Trad. de Heloysa de Lima Dantas e Posé Paulo Paes. São Paulo, Cultrix / Ed. da Universidade de São Paulo, 1976, p.58.
[9] Pulchra enim dicuntur ea quae visa placent
[10] James Joyce. De santos e sábios. Trad. André Cechinel,, Caetano Galindo, Dirce Waltrick do Amarante, Sérgio Medeiros. São Paulo, Iluminuras, 2012, p.156.

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Prefácio de Luiz-Olyntho Telles da Silva

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Luiz-Olyntho Telles da Silva é psicanalista e escritor, membro fundador da Biblioteca Sigmund Freud, espaço de formação e interlocução psicanalítica. Convidado por diversas instituições psicanalíticas, já apresentou seus trabalhos, além de Porto Alegre, em Florianópolis, São Paulo, Rio de Janeiro, Niterói, Vitória, Brasília, Salvador, Recife, Buenos Aires, Montevidéu, Santiago, Barcelona, Canes, Ville de Grace, Paris e Nova Iorque. No Brasil, publicou Pagar com palavras ([Organizador] Movimento, 1984), Da miséria neurótica à infelicidade comum (Movimento, 1989 [1ª ed.] e 2009 [2ª ed. revista, corrigida e ampliada]), FREUD / LACAN: O desvelamento do sujeito (AGE, 1999), Leituras (AGE, 2004), e estreou na literatura com o livro de contos Incidentes em um ano bissexto (EDA, 2009). Publicou Ponto contraponto (HCE, 2012) e, mais recentemente, Um elefante em Albany Street (HCE, 2013).


Minuta de Diego Mendes Sousa



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