miércoles, 7 de octubre de 2015

RAQUEL NAVEIRA [17.191] Poeta de Brasil


Raquel Naveira

Raquel Naveira nació en Campo Grande, Mato Grosso do Sul, Brasil el 23 de septiembre de 1957. Se graduó en Derecho y Literatura de FUCMT, Universidad Católica actual Dom Bosco, (Literatura brasileña, Inglés Literatura y Literatura Latina), de 1987 a 2006. Licenciada en Lengua y Literatura Francesa por la Universidad de Nancy (Francia). Maestra en Comunicación y Lenguajes de Mackenzie Universidad de Sao Paulo.

Fue profesora en la Universidad de Santa Ursula, en Río de Janeiro, de 2006 a 2007 y dio cursos en la Casa de la Lectura y Sala de Lectura / RJ. Profesor de Curso Literatura Facultad de Anchieta en São Bernardo do Campo / SP, desde julio de 2008, cursos sobre literatura en la Casa das Rosas / SP. Profesora del curso de posgrado titulado "Aspectos prácticos y de la Enseñanza y el Aprendizaje de Inglés Lengua y Literatura", el UNINOVE / SP (2008).

Pertenece a la Academia Grosso del Sur Mato de las Artes y del Pen Club de Brasil. Ha escrito varios libros, entre ellos: 

Abadia (poemas, editora Imago,1996) e Casa de Tecla (poemas, editora Escrituras, 1999), finalistas do Prêmio Jabuti de Poesia, da Câmara Brasileira do Livro. Os mais recentes são o livro de poemas Portão de ferro (Escrituras, 2006) e o livro de ensaios Literatura e drogas - e outros ensaios (Nova Razão Cultural, 2007), adotado em toda rede estadual do Rio de Janeiro. Escreveu ainda o infanto-juvenil, Pele de Jambo e o livro de ensaios, Fiandeira.

Historia y poesía, publicó los romances guerra entre hermanos (poemas inspirados en la Guerra del Paraguay) y Caraguatá (poemas inspirados en la Guerra impugnada), que se convirtió en el cortometraje "Cubriendo la sombra de los cielos", el monólogo con la actriz Christiane Tricerri, bajo la dirección de Celio Magno.

Lanzó el CD "Spinners Pantanal", en el que recita sus poemas, acompañados por la voz y craviola la cantante Tete Espindola.

El trabajo de Rachel Naveira tiene un enorme capital críticao, ser reconocida y apreciada por escritores y críticos como Fábio Lucas, Hernani Donato, Paulo Bonfim, Lygia Fagundes Telles, Nelly Novaes Coelho, Nélida Piñón, Antonio Houaiss, Ledo Ivo y otros.

Raquel Naveira produjo y presentó el programa "Prosa y verso," literario durante seis años en el canal universitario (canal 14, NET), en el que ha entrevistado a Adelia Prado, Zuenir Ventura, Cassia actriz (video en Youtube) e Ignacio Loyola Brandão.

Da conferencias, participa en ferias del libro, universidades y eventos culturales, tomando lecturas de sus poemas en todo el país.



MUERTOS DEL BOSQUE

Hay un momento
En que contabilizamos a los muertos.
Abuelos,
Tíos,
Tíos abuelos,
Una generación.
Los enterramos en el bosque,
Medio corroídos por ácido,
Deformados por la vejez
Y pasamos un tractor sobre el osario.

         Después, paseamos por la tierra arada,
         Empapada de sangre,
         El viento soplando
         En los árboles escuálidos
         Que desprenden cenizas.


          
BASTÓN

         Santos y profetas
         Se apoyan en los bastones,
         Largas varas curvadas en la punta,
         Puntos de apoyo
         Y de poder.

         El bastón sustenta el cuerpo,
         Fardo pesado
         Como hoja.

         El bastón equilibra el cuerpo,
         Asa prendida al suelo
         Por un imán.

         Los bastones
         Palos secos,
         Cayados retorcidos,
         Pueden dar frutos y flores
         Cuando los aseguran los poetas.

         
         

VINO

         ίYa no queda vino!
         El mosto está triste,
         La viña marchita,
         Mi corazón alegre
         Ahora suspira.

         Yo, la novia,
         Llena de júbilo,
         Miraba a los comensales
         Cantando,
         Bebiendo vino.

         Yo, la novia,
         Que había cogido uvas tintoreras
         Para el tónico estimulante,
         ίBailaba al son de los tambores
         y de la cítara!

         ¿Dónde está el aroma
         Que salía de las tinajas de piedras
         Y embriagaba de placer?
         Quedo un licor amargo
         De frutas ácidas y prematuras.

         Señor,
         Ya no queda vino
         Y quiero fiesta.

Extraídos de la ANTOLOGÍA DE LA POESÍA BRASILEÑA 
Org. Trad. de Xosé Lois García
Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 2001.


Poesia e Magistério sempre andaram juntos em minha vida. É como o processo de ler e escrever. A professora alimenta a poeta com seus estudos e dedicação aos livros e a poeta dá ânimo, força e paixão às lições da professora.  A minha história com a Literatura começou na infância. Sempre fui fascinada pela palavra. Ela é minha forma de ser e estar no mundo. Quando criança amava as cantigas de roda, os contos de fadas, o objeto livro. Meu avô, um autodidata, possuía uma rica biblioteca e eu gostava de manusear os livros, de observar figuras à luz de velas. Logo que comecei a ler, encontrei Monteiro Lobato e foi o abrir das asas da imaginação. Meu avô levou-me a Taubaté para conhecer o Sítio do Picapau Amarelo, viagem inesquecível. Devia ter uns oito anos quando resolvi ser escritora. Escrevia histórias de fadas e bruxas em pequenos cadernos. Era meio bruxa e meio fada. Nasci com vocação para escritora e professora. O amor pelos livros transformou-se em amor pelo magistério. Gostava de dar aulas para minhas bonecas, de fazer a chamada e passar o ponto na lousa. A poesia veio na adolescência. Como bálsamo e remédio. Creio que mágoas curam grandes mágoas, como escreveu Camões. Sempre sonhei em escrever livros. Dediquei-me ao jornalismo e ao magistério. Quando lancei meu primeiro livro, o Via Sacra, aos 31 anos, já tinha um público leitor formado. Publiquei de forma independente, não sabia como fazer. Aí apareceu o “correio”. Tornei-me uma missivista. Espalhei cartas pelo Brasil. Enviei meu livro a centenas de pessoas: amigos, jornalistas, escritores, editores, professores, instituições. Uma vida como a de Pablo Neruda na Isla Negra, aguardando o carteiro. Depois passei a viajar, fiz o mestrado em Comunicação e Letras na Universidade Mackenzie de São Paulo, visitava bienais do livro, assistia a palestras de escritores. Por décadas. O círculo foi aumentando, como pedra atirada no lago, formando ondas. 

Mato Grosso do Sul é minha terra natal, minha origem, útero no qual fui gerada por  mais de meio século e atirada ao mundo. Amo minha terra, sem permanecer mais nela, mas reconhecendo seu direito de persistir para sempre dentro de mim. Sinto-me naquelas ruas de Campo Grande, mesmo pisando outras ruas. Minha arte sempre será uma mescla de tudo que vi com olhos de campo-grandense. É como se minha alma tivesse três dimensões: a ancestral, portuguesa, cheia de veleiros e barcos negros saindo pelo mar desconhecido; a de fronteira entre o Brasil e o Paraguai, entre o bem e o mal, entre o sonho e a realidade e esta agora jogada como um morcego pelos túneis e viadutos dessa grande cidade que é São Paulo.  

Guerra entre Irmãos: poemas inspirados na Guerra do Paraguai nasceu do meu desejo de escrever romanceiros, de pesquisar história, de imaginar os sentimentos atrás dos fatos notáveis. Amo o épico: a Ilíada, a Odisseia, os Lusíadas. E depois de ler o Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles, pensei num tema que me impressionasse e veio à lembrança a Guerra do Paraguai, o maior conflito armado da América do Sul, acontecido entre 1864 e 1870, envolvendo de um lado a Tríplice Aliança: Brasil, Argentina e Uruguai e de outro, o Paraguai. Mato Grosso foi o palco da guerra, nada mais natural que escolhesse estudar essa tragédia que dizimou mais de 150 mil brasileiros e 300 mil paraguaios, entre escaramuças, batalhas, fomes e epidemias. Guerra que tornou o Paraguai um dos países mais atrasados da América do Sul e que trouxe fortes consequências para o fim do Império brasileiro. Escolhi o monólogo dramático como forma de apresentar os personagens da guerra, uma maneira de me colocar na pele e na voz do outro. E um tom de profunda compaixão, numa guerra onde todos saíram perdendo, onde todos foram vencidos. Esse livro teve inúmeros desdobramentos, inclusive alguns de seus poemas publicados em livros de História do Brasil. 

Escrevo muito realmente. Escrever é o que me faz bem. Sinto-me um peixe no mar, diante da folha em branco. O meu universo é o das palavras. Creio no poder da palavra. Que a palavra é bênção e maldição. Que ela cria o real. Que Deus é o Verbo encarnado. Que o reino das palavras é mágico. Que a palavra atrai,  profetiza, cura, exorciza, marca com ferro e fogo. Para o escritor, é difícil abrir clareiras no cotidiano que nos obriga a inúmeras tarefas estafantes como ir a bancos e supermercados. É preciso sim disciplina, estabelecer horários ou até escrever nas madrugadas, hora mística para a criação. Minhas referências literárias são muitas, até por conta do ofício. Sempre fui leitora apaixonada. Desde criança: Monteiro Lobato, Andersen, os irmãos Grimm, As Mil e Uma Noites, Malba Tahan. Na adolescência, a poesia: os românticos, o revolucionário Castro Alves, o genial Álvares de Azevedo, o clássico Gonçalves Dias; os modernistas: Mário de Andrade, Drummond, Bandeira, Cecília Meireles. E houve o momento Clarice. Lygia, amiga querida, que passou a me enviar seus livros com lindas dedicatórias. E Nélida, que narra tudo como Homero. A Literatura Francesa caminhou lado a lado, o francês é minha segunda língua: Rimbaud, Baudelaire, Verlaine. Na Literatura Latina, sou fascinada por Roma Antiga, pela mitologia greco-romana. A literatura latino-americana com o realismo fantástico de Borges. Na literatura portuguesa, Camões, Fernando Pessoa, Florbela Espanca, entre outros. E hoje, a literatura africana com Mia Couto à frente. Nunca esquecendo que minha leitura de todos os dias é a Bíblia. Está tudo lá: oráculos, ensinamentos, poesia pura como ouro de Ofir. Com destaque para os salmos, os cantares de Salomão e as cartas de Paulo.  

Houve lentos caminhos de mudança. Estranhas premonições, como num dia em que estava andando e vi, ao meu lado, o mar com um imenso navio que se aproximava de mim. Transformações ocorreram ao meu redor, no trabalho e na família. As praças, as pessoas pareciam denunciar uma imobilidade, uma condenação a um fracasso que só eu poderia reverter. E mudei, atirei-me além de minhas limitações. A vinda  para o sul me fez conhecer gente, lugares, realidades complexas, alargar meus horizontes mentais. Mantive o foco na literatura, o que não é fácil. Campo Grande hoje é uma cidade com excelentes universidades, editoras, uma Academia de Letras respeitada e atuante em todo o Estado, da qual faço parte. Estou sempre me comunicando com pessoas de lá, sou uma espécie de diplomata, de embaixadora. Não quero procurar o passado, o que é sempre frustrante. Mas estou aberta para surpresas do futuro.       

Sangue Português: raízes, formação e lusofonia (editora Arte&Ciência) recebeu o Prêmio Guavira de Literatura da Fundação de  Cultura de Mato Grosso do Sul em 2013. Reafirmando minha vibração épica, tracei o inventário das ressonâncias atávicas de minha genealogia familiar e literária. A partir da herança portuguesa, rememoro o percurso dos meus antepassados; revisito monumentos célebres do patrimônio histórico-cultural de Portugal; rendo tributo a grandes poetas como Bocage, Pessoa e Camões; canto as terras lusófonas de África e de Ásia. Compus um variado painel didático-poético sobre o legado de nossa identidade cultural. Creio que a lusofonia pode ser uma plataforma de solidariedade a partir da qual os povos que falam português poderão se aproximar e ampliar o âmbito de suas ações econômicas, políticas e culturais. A língua portuguesa é meu instrumento de trabalho, de expressão. Meu maior desejo tem sido sempre o de dominá-la, conhecê-la, respeitá-la até mesmo para subvertê-la, para conceber poesia.// Sobre o livro  Quarto de Artista, escreveu o poeta Antonio Carlos Secchin, da Academia Brasileira de Letras: “Quase tudo cabe neste Quarto de Artista: a poesia, o ensaio, a crônica, a ficção, numa orquestração de textos bem regida por Raquel Naveira. Em suas interpretações e comentários, avultam não só a precisão das informações, mas a sensibilidade e a argúcia da escritora, que prefere o embate corpo a corpo com o texto, em vez de recorrer a leituras já consolidadas”. Quarto de Artista (editora Íbis Libris) é um livro de reflexões críticas, de rememorações, de variações filosóficas, de delírios de alguém que ama ler e escrever. A capa traz o belo quadro de Van Gogh retratando o seu quarto em Arles, pois o artista precisa de um quarto, de um lugar trancado à chave, onde possa produzir, libertar a mente para criar sua obra. 

Aqui em São Paulo dou aulas de Pós-Graduação num curso de “Estudos Linguísticos e Literários”, faço  palestras  em aparelhos culturais como Casa das Rosas e Casa Guilherme de Almeida, vou a clubes de leituras, a galerias, a lançamentos de livros dos amigos, a encontros sobre cinema e literatura. E sempre estudando, escrevendo, cuidando da minha família, acreditando em sonhos. O projeto maior é continuar resistindo pela vida através da minha arte.  Outros projetos: novos livros. Será lançado em breve o Dora, a menina escritora e outros  contos de infância (editora Alvorada). Preparo um livro de poemas e um romance. Um volume de Poesia Reunida é meta importante. Disse Fernando Pessoa: “Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.”

Minuta de Diego Mendes Sousa



JARDIM FECHADO

Vem, noivo meu,
Entre no jardim
Fechado,
Selado,
Cheirando a nardo e jasmim.

Vem, noivo meu,
Dá volta ao muro,
Abre a porta estreita
E, no canteiro de mandrágoras,
Cinge-me o corpo com teus braços
Bem na altura do rim.

Vem, noivo meu,
Até o centro
Onde há fontes e repuxos
E uma gruta macia
Como cetim.

Vem,
Meu delfim,
Atravessa o parque,
O lago de lótus
E prova os frutos deliciosos
Que brotam no íntimo
Da alma que há em mim.

Vem,
Gentil serafim,
Peça ao vento que sopre,
Que se derramem aromas
De canela e alecrim.

Vem,
Jardineiro fiel,
Sobe a escadaria
Que parece não ter fim
E nos leva juntos ao céu.

Sou jardim fechado,
Penetra neste vargim.


CASTIÇAL
                                           
Não tires de mim o meu castiçal,
Esse foco luminoso
Que clareia minha mesa
E meu rosto no vitral.

Não tires de mim o meu castiçal
Que de noite brilha,
Estrela dourada
De minha origem astral.

Não tires de mim o meu castiçal,
Aparo os pavios,
Encharco-os de óleo,
As folhas da amendoeira
Crepitam no fogo outonal.

Não tires de mim o meu castiçal,
Essa árvore de vida,
Esse esplendor
Que me faz guerreira
De alma imortal.

Conheces meu trabalho,
Minha paciência,
Meu esforço espiritual,
Que tens contra mim?
Por que queres tirar o meu castiçal?

Dá-me a luz do arrependimento,
Do amor puro
De uma sacerdotisa vestal,
Suplico,
Não tires deste lugar
O meu castiçal.



MORTOS NA FLORESTA

Há um momento
Em que contabilizamos os mortos:
Avós,
Tios,
Tios-avós,
Uma geração,
Aí, nós os enterramos na floresta,
Meio corroídos de ácido,
Deformados pela velhice
E passamos um trator sobre as ossadas.

Depois, passeamos pela terra arada,
Empapada da sangue,
O vento soprando
Nas árvores esquálidas
Que soltam cinzas.


CAJADO

Santos e profetas
Apóiam-se em cajados,
Longas varas recurvadas na ponta,
Pontos de apoio
E de poder.

O cajado sustenta o corpo,
Asa presa ao chão
Por imã.

Os cajados,
Galhos secos,
Bordões retorcidos,
Podem dar frutos e flores
Quando seguros pelos poetas.


VINHO

Não há mais vinho!
O mosto está triste,
A vinha murcha,
Meu coração alegre
Agora suspira.

Eu, a noiva,
Cheia de júbilo,
Olhava os convivas
Cantando,
Bebendo vinho.

Eu, a noiva,
Que colhera uvas tintureiras
Para o tônico estimulante,
Dançava ao som dos tambores
E da cítara!

Onde o aroma
Que saía das talhas de pedra
E embriagava de prazer?
Restou um licor amargo
De frutas ácidas e prematuras.

Senhor,
Não há mais vinho
E quero festa.



LEMBRANÇA DO RIO

Da janela da cozinha
Eu via
O rio
Ou era o rio que me espiava,
Espichando o dorso de lama,
Cobra
De couro liso.

Enquanto lavava louça,
O rio,
Escorregadio,
Levava nas águas sem espuma,
Os meus desejos,
Sentimentos
E desvios.

De vez em quando,
Desprendia-se da árvore
Um bugio,
O rio tremia,
A pele eriçada
Num calafrio.

Eu via
E pensava:
Sou moça,
Não vou morrer
Se me atiro
Nesse rio;
Não há dor,
Queimadura,
Lamento
Que ele não cure,
O seu balbucio
É paz e esquecimento.

Ó substância úmida!
Ó existência precária!
Meu corpo escoa
Como água
Como se fosse
Meu próprio rio.




PANAPANÁ

Já viram um panapaná?
É uma onda interminável de borboletas
Que pousam sobre o pântano fumegante,
Batendo as asas impacientes,
Sorvendo sais da lama,
Num desassossego
De seres que não cansam.  

Já viram um panapaná?
As borboletas formam nuvens,
Miraculoso caudal
De pétalas alaranjadas,
Perdidas e ligeiras,
Em busca de flamas brilhantes.

Crisálidas,
Meninas aladas,
Espíritos viajantes,
Esvoaçam como almas saídas
De estranhas moradas.

Atravessei o panapaná:
Era um banhado,
Um brejo
Banhado de flores,
Virei fada
                        
      Do lado de lá.


          
RETRATO DE UMA INFANTA                                          

Este é o retrato de uma princesa,
Uma infanta,
Que jamais foi rainha
Mas que guarda
Na palidez da face
Uma tristeza oculta,
Um sofrimento
Que a torna imortal
E santa.

O retrato da princesa,
Pequena infanta
Vestida de negro,
Diz que ela nunca se casou,
Que sucumbiu
No auge da vida
A uma febre,
A uma chama
Que a consumiu
E fechou-lhe a garganta.

O retrato da princesa,
Pobre infanta,
Mostra um corpo frágil,
Uma cabeça erguida,
Uma testa ampla,
Gerada por príncipes,
Talvez das Astúrias,
Há no seu olhar
Um fascínio que encanta.

No retrato da princesa,
Um espelho ao fundo
Devora a sua imagem,
O seu sonho de infanta.

.../
Seria ela Margarida?
Amélia?
Maria?
Teria sido solitária,
Exilada,
Sem reino,
Sem destino,
Decapitada?

O que há nesse retrato
Que tanto me espanta? 



De
SENHORA
São Paulo: Escrituras, 1999


MODA III

O manto cinza,
De cânhamo,
Cobre meu corpo com aspereza;
Rústico como a pobreza.
Combina com pés descalços,
Lágrimas
E tristeza.




ROSALÍA

(Em homenagem à poetisa, Rosalía de Castro, de
Santiago de Compostela)

Rosalía,
Vestida de negro,
Caminha pelo vale,
Sombra entre os pinos angulosos
E os gritos das aves
Nas avelaneiras.

Coração carregado de terrores secretos,
Rosto abatido,
Mãos trêmulas como ervas,
Caminho rumo a Santiago,
No prumo da perfeição.

Passa por bosques,
Ribeiras,
Atravessa a tempestade,
A neblina espessa,
Nuvem ligeira,
Que caminha.

Ao longe,
Ouve os sinos da igreja,
Que fazem chorar,
Rezar soluços,
Lembra-se de Tiago,
O pescador,
O apóstolo
Passado a fio de espada,
A tristeza come-lhe as entranhas.

È preciso chegar a Compostela,
Ao abrigo,
Peregrina que foge de si mesma
E se rebela.

É preciso aplacar a raiva,
Depor a foice
De quem faz justiça com as próprias mãos.

Chove pelo caminho,
Amarfanha-se o vestido,
O negror do linho penetra a pele:
Onde a cantiga galega
Ao pé das fontes e arroios?
Onde os ramos de açucenas nos muros?
Onde os rosais floridos?
Tudo seca,
Tudo morre.

Rosalía,
Estrela negra,
Embrenhou-se
Na Via Láctea.



NAVEIRA, Raquel.  Guerra entre irmãos (poemas inspirados na Guerra do Paraguai).  Campo Grande, MS: 1993.  71 p.  formato 14x21,5 cm.  ex. autografado.  Col. A.M. (EA)



VI - SOLO GUARANI

Solo guarani: palco da guerra,
Vale em que se cruzam
As águas do Paraná,
Quase mar
E as do Paraguai,
(Sobre os camalotes voam papagaios).

Solo guarani,
Piraretã, patriazinha,
Onde os índios bebiam mel silvestre
E se tatuavam de preto e anil.

O solo guarani
Selou a sorte de Solano,
Sonhava com a glória,
O oceano
E não transpôs a fronteira
De sua própria terra,
Encurralado e só.



NAVEIRA, Raquel.  Casa de tecla.  São Paulo: Escrituras Editora, 1998.   101 p.  14x21 cm.  Capa e ilustrações (impressas em cores e coladas em folhas do miolo) por Ana Zahram.   Tiragem: 1000 exs.


CANTO DE SEREIA

Vem, meu Ulisses,
Detém teu barco,
Sou sereia sedutora,
Sirena suave
Que atrai para o abismo.

Vem, meu navegante,
Para a minha caverna,
Minha gruta secreta
Onde te devoro
E te encanto.

Vem, meu bravo,
Venceste Tróia
Com tua astúcia,
Descansa em minha ilha,
Entre penhascos negros
E precipícios de espumas.

Vem,
Sou sereia,
Cauda de peixe,
Toda vulva,
Estranho molusco
Que te descarna
E te sepulta
Nos baixios do mar.



NAVEIRA, Raquel.  Quarto de artista: Guilherme de Almeida, Castro Alves, Dicke, Nejar, Lorca, Van Gogh, Manoel de Barros e Virgilio.   Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2013.  178 p.  14x21 cm.  ISBN 978-85-7823-145-3 

         
CAMPESTRE

Há um grilo que brilha
Agarrado à folha
E uma estrela que canta
Presa na mata.

Há um orvalho que escorre
E morre na grama.
Ha uma rosa que perfuma
E penetra na cama.

Há pessoas que falam,
Ao redor de luzes esparsas,
As faces imersas na cor do fogo,
Um jogo de cartas...

Ha louças recostadas, na pedra,
Plantas amontoadas nas janelas,
Panelas magicas nas paredes,
Estranhos doces em gamelas...

Ha silêncios que preparam auroras,
Preces que desfiam as horas,
Medos de bichos e caaporas.

Ha tanta paz.
Tanta paz onde moras.



NAVEIRA, Raquel. Fiandeira.  São Pauli, SP: Estação Liberdade, 1992.   95 p.   14x21 cm.  Capa: Helio Poszar.  O Sumário revela uma lista de textos sobre diversos temas, alguns focando a poesia: “Nomes Femininos” (sobre a poesia da autora), “Poesia Sociológica”, “ O Fazer Poético” e outros associados ao tema. 



VERÔNICA

Estava na rua quando ele passou:
A capa púrpura,
A coroa de espinhos,
O lenho sobre os ombros;
Descontrolada,
Chorei por ele,
Por mim,
Por meus filhos;
Corri soluçando entre o povo
Que cuspia,
Vociferava,
Injetados de raiva e sangue;
Aproximei-me dele,
Nas mãos um pedaço de linho
Que teci na primavera,
Nossos olhares se cruzaram
E o dele era uma campina azul,
Um oceano liso,
Um friso de luz;
Enxuguei o suor de seu rosto
Que, por um instante,
Apoiei com os dedos;
Qual não foi minha surpresa
Ao perceber naqueles traços vermelhos,
Impressos no pano,
A sua santa fisionomia!
Esta história é verdadeira,
A imagem é verdadeira,
"Vera icon".





NAVEIRA, Raquel.  O arado e a estrela  (ensaios).  Campo Grande, MS: Universidade  Católica Dom Bosco, 1996  167 p.   179 p.  14x21,5 cm.  O livro está dividido em 4 partes, as três primeiras sobre “Temas regionais”, “Temas históricos”, “Temas místicos” e a última  com “Temas sobre o fazer poético” em que disserta sobre a poética e ilustra com poemas seus e de outros autores (Drummond, Bandeira, etc.).  Col. A.M.



CONCEIÇÃO DOS BUGRES

Conceição transformava madeira em bugres
Numa festa de suor, serragem,
Cera de abelha.

Conceição,
Afilhada de Nossa Senhora,
Benta com o estigma de mulher pobre.

Conceição via o sol cair no lago do Amor
Enquanto tomava mate
Na cuia da morte.

Conceição,
Vela consumida até o fim,
Recendendo guavira.

Conceição
Foi esculpir bugres na noite índia,
Nos riachos puros onde fremem sapos. 

(NAVEIRA, 1991:73)




NAVEIRA, Raquel.  Canção dos mistérios.  São Paulo: Paulus, 1994.   13x20 cm.  56 p.  ilus. p&b  Ilustrações: Vêny.  ISBN  85-349-0190-2



JESUS A CAMINHO DO CALVÁRIO

Sobre teu ombro ferido
Depositaram a trave da cruz,
E como doeu
Aquela chaga em teu ombro;
As costas,
A coluna,
O pulmão engaiolado nas costelas,
Tudo te doía,
Que peso massacrou teu dorso débil!

Por três vezes caíste
A caminho do monte Calvário,
Fui Simão de Cirene,
Aquele que carregou a cruz para ti
E te consolou,
Fui uma daquelas mulheres que batiam o peito
E te lamentavam.

Estou contigo. Senhor,
Compartilho de teu martírio
E tu compartilhas do meu.



NAVEIRA, Raquel.  Stella Maia e outros poemas.  Campo Grande, MS: UCDB, 2001.  113 p.  formato 12,5x17 cm. 



PANTANAIS

Quem poderá esquecer esses carandazais,
Que abanam com seus leques o rio Paraguai?

Quem poderá esquecer esses canais
Que se abrem entre camalotes e lodaçais?

Quem poderá esquecer esses pantanais
Que trazem surpresas de plantas e animais?

Quem poderá esquecer esses navios estivais,
Que descem o rio ao som de cantigas natais?

Quem poderá esquecer as terras brancas, minerais,
Onde os passos rangem deixando sinais?

Quem, estando longe ou perto,
Poderá esquecer o que não se esquece jamais?






NAVEIRA, Raquel. Nunca-te-vi.  São Paulo, SP: Estação Liberdade, 1991.   76 p.  13,5x20,5 cm.  Capa e ilustrações: Hélio Poszar.   “ Raquel Naveira “  Ex. Biblioteca Nacional de Brasília.



CARNEADA

Era dia de carnear vaca,
Dia de faca,
De matança,
De aves negras,
De céu cruento.

Os homens iam pro campo
Com a promessa de carne
E eu ficava imaginando
As lágrimas saltando dos olhos mansos,
O bicho estrebuchando nos cascos.

Quando voltavam,
O sol ardendo como brasa no crepúsculo,
Carregando fígado e coração,
Encharcados de sangue,
Impregnados de delícia selvagem,
Minha alma se confrangia,
Enquanto, resignada e faminta,
Observava as chamas preparadas
Para o bárbaro banquete.  


http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/mato_grosso_sul/raquel_naveira.html



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