viernes, 26 de diciembre de 2014

NICOLÁS BEHR [14.326] Poeta de Brasil


NICOLÁS BEHR

Nicolas Behr nació en Cuiabá, Brasil, en 1958. En 1977 produjo las copias de su primer libro y best-seller “Iogurte com Farinha” con un ciclostil, vendiendo personalmente las 8.000 copias. Además de numerosas publicaciones ha trabajado como redactor en agencias de publicidad, en varias fundaciones y organizaciones ecológicas y es socio-propietario de Pau-Brasilia Viveiro Eco.loja. En el año 2008 fue nominada su recopilación “Laranja Seleta – poesia escolhida – 1977 – 2007” para el Prêmio Portugal Telecom de Literatura. La cineasta Danyella Proença dirigió en 2010 el film “Braxília”, ganador del premio del jurado en el Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que trata la relación de este poeta con su ciudad.



NICOLÁS BEHR

Nicolás Behr es el más activo representante de una generación de jóvenes de Brasília que, en los años 70, se atrevió a bajar de los edificios diseñados por Lucio Costa para crear arte entre las cuadras y los ejes viales del Plan Plioto de la ciudad. Beher perteneció  a esa "generació mimeógrafo" que trajo de vuelta a la poesía la libertad forma y la simplicidad temática calcada de la observación de lo cotidiano. Sus poemas reflejan la angustia, muchas veces sazonada con corrosivo humor, de vivir en una ciudad de siglas y números.   CARLOS MARCELO

  

No Prosa & Verso deste sábado, 18 de dezembro de 2010, o crítico José Castello escreveu sobre a edição, em português, da Brasilíada, de Nicolas Behr, recém-lançado pela editora Língua Geral. A seguir, dois fragmentos do referido texto:

“Brasilíada” é o relato de uma guerra. É, ainda, a narrativa, minuciosa, de uma escavação. Cavando os entulhos do presente, como um arqueólogo cego, Behr tateia em busca da cidade mágica (a Bagdá de Sherazade?), que não existe mais. Se é que algum dia existiu. Apoia-se em frágeis pegadas e relata sua aventura com firmeza, mas pudor, ciente de que sua odisseia provoca desconforto em quem lê. Mas como fazer poesia sem incluir a perturbação?  (...)"Estranha “Ilíada”, o poema se desenrola às avessas, servindo não como relato de uma vitória, mas como funeral. Prevendo o futuro, o poeta se angustia: “Esse livro é um elogio de Brasília?/ Ou uma crítica/ à burocracia?” Incapaz de uma resposta (se dão respostas, poetas negam a poesia), Behr persevera no vazio, e dele faz sua beleza."



"incluya mi 
nombre en
la lista 
de los que
nunca serán invitados"

***

si me matara,
estaría matando
a la persona
errada

Nicolás Behr

Este es el irreverante Nicolás Behr, que fue considerado poeta marginal porque vivía al margen la oficialidad en los tiempos de la dictadura. Hoy es un semeador de plantas en su vivero y un diseminador de antipoemas como lo hizo (y sigue haciendo) Nicanor Parra. Humor rojo como la tierra de Brasilia...   ANTONIO MIRANDA



Nicolás Behr
De
Nicolás Behr
LA BRASILÍADA
Selección. recomposición,
traducción y notas de
Jesús J. Barquet
Brasília: 2009



brasilia son las ruinas
de macchu picchu invertidas,
cuzco reconstruído, tiahuanaco
sin terminar, pirámide
de teotihuacán al revé,
palaciao del altiplanalto,
ciudad perdida de los candangos

(....)

las líneas del eje monumental
son continuación
de las líneas de nazca



***

primero la realización,
después el sueño.
brasilia fue al revés:
se inauguraron primero
las ruinas

los habitantes
empezaron entonces
a abandonar la ciudad

***

demarcar el área del
poema en la altiplanicie
central, tomar posesión
del poema, ocuparlo,
parcelarlo y después
abandonarlo en esta página

***

edificios  ejes  cuadras

señores, esta ciudad
es una clase de geometría



***

brasilia fue
construida
para ser destruida

poco a poco

exactamente como
lo estamos haciendo

***

en solemne ceremonia
oficial, celebrando
la eficiencia de
la máquina estatal,
fueron sacarifiadas
321 graadoras de bronce,
234 grapas de plata y
185 cuños de oro

***

ejes viales que se cruzan
personas que
no se encuentran

***

dolor archivado
felicidad protocolada
utopía pospuesta

brasilia es el
fracaso mejor
planeado de todos
los tiempos



Política literaria

         con tu permiso, carlos



el poeta del ala norte
discute con el poeta
del ala sur
para ver cuál de ellos es capaz
de pegarle al poeta
del plan piloto

mientras tanti, el poeta
de una ciudad-satélite cualquiera
se quiata el fango del zapato

***

evangelio de la realidad
contra jotakristo, según
san lucio: y aquel día,
jotakristo, subiendo a
los cielos en un tronco
de pequí, dijo a los
candangos: bienaventurados
los que construisteis
conmigo esta ciudad dpues
todos vosotros iréis
para las satélites

***


saludo a tus excluidos,
aquí incluidos

***

muy bien, ya nos
mostró usted
los edificios,
las cuadras,
los palacios,
los monumentos...

¿cree usted que podría
mostrarnos ahora
la ciudad
propiamente dicha?

***  



la ciudad ee eso
mismo que estás
viendo aunque no
estés viendo nada




Nikolaus von Behr  nasceu em Cuiabá, Mato Grosso, em 1958. Estudou o primário com padres jesuítas, em Diamantino-MT, onde os pais eram fazendeiros. Mora em Brasília desde 74. Em 77 lançou seu primeiro livrinho e “ best seller” Iogurte com Farinha, impresso gloriosamente em mimeógrafo nas dependências do Colégio Setor Leste, quando da morte de Elvis Presley, exatamente um ano após a morte de Juscelino Kubitschek.
De mão em mão vendeu 8.000 exemplares. Em 1978, após lançar Grande Circular, Caroço de Goiaba e Chá com Porrada, foi preso pelo DOPS por “ posse de material pornográfico” ( na verdade, também por suas atividades políticas no movimento estudantil ) sendo julgado e absolvido no ano seguinte. Em 1982 criou, juntamente com Zunga e Lacerda, o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília – primeira ONG ambientalista da capital federal. Em 1987 morou em Washington DC, EUA, vindo a trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza de 1988 a 1990. De lá pra cá dedica-se à produção e comercialização de mudas, seu antigo “ hobby”, sendo pioneiro na produção de mudas de espécies nativas dos cerrados, especializando-se em palmeiras e em frutas e árvores raras. Voltou a publicar seus livros de poesia a partir de 1993, com Porque Construí Braxília. Sócio-Gerente da Pau-Brasília viveiro.eco.loja. Casado com Alcina Ramalho desde l986, tem três filhos: Erik ( 1990 ) Klaus e Max ( gêmeos – 1992 ). 

Conheço e admiro o Nicolas desde os tempos em que ele publicava seus poemas de forma panfletária e os vendia nos cafés da cidade. Vibrava com suas produções iconoclastas e demolidoras, reencarnando-me em sua ousadia. Ele continua criativo, inventivo, instigante. Escolhi  uma foto dele daqueles tempos (Foto: Juan Pratginestós - 1977), na tentativa de preservar aquelas primeiras imagens, sem pretender excluir o poeta mais maduro dos tempos atuais.
ANTONIO MIRANDA  
Sítio do autor:  http://www.nicolasbehr.com.br



De
Nicolas Behr
O Bagaço da laranja para ler com os dentes e mastigar bem (1977- 2007).  Brasília: Athalaia Gráfica e Editora, 2010.   126 p.  (Coleção Oi Poema, 2)




ACEROLA  LOUCA

troquei o poema pela ema
as palmas pelas palmeiras
as vaias pelas uvaias

eu faço poesia como quem brinca
de trocar tristeza por alegria

nas profundezas das florestas
de palavras vivem os poetas
disfarçados de árvores e ditongos

se alimentam do nada
e de tudo o que
a imaginação decompõe




De
laranja seleta
poesia escolhida (1977-2007)
Rio de Janeiro: língua real, 2007


“Há muitas entradas e saídas na poesia de Nicolas Behr. Como se trata de uma poesia em que a noção de movimento, de lugar de onde parte o autor em direção ao mundo, e de seu próprio caminhar é fundamental, essa idéia de situações em movimento, que se fecham e se abrem para o poeta, está muito presente.
A poesia de Nicolas, para mim, é a poesia do homem que se move, do homem em travessia, que sai de um ponto em direção a outro. Num certo sentido é uma poesia da geometria do caminhar, de um traçado que se torna aparente na luz do movimento.
Nesse ir e vir, a poesia de um homem que se pensa, que se busca e estabelece uma interlocução permanente e desesperada com o espaço imediato e contígûo- a cidade, no caso Brasília, a qual retrata, de modo intermitente, o real em sua pseudo-aparência ou verdade, espelho em que este homem procura o contorno de si. (...)” FRANCISCO ALVIM

“A poesia de Nicolas Behr parece espontânea e simples. Nem tanto. “Achados”  depois de muito rebuscar, de muito caminhar... como os artefatos do Nicanor Parra que, ao perseguir o simples e o banal, é tão sofisticado...coloquial na aparência, mas cru e sarcástico no fundo, leve e breve mas nunca simplório nos melhores momentos.” ANTONIO MIRANDA



o menino que fui existe onde não estou

o menino que fui não sou eu,
é outro menino, mais antigo,
que veio antes de mim

o menino que fui
nenhum poeta imagina,
nenhuma palavra recria

o menino que fui não foi

                                       ***

o seio como parte da boca
o toque como parte do olhar
o respirar como parte do ar
o  dançarino como parte da dança
a língua como parte do dente
o desejo como parte do gozo
o poema como parte do todo
a vagina como parte do pênis

e o teu espanto
como parte do medo

             ***                         

desço aos infernos
pelas escadas rolantes
da rodoviária de Brasília

meu corpo boiando
no óleo que ferve
um pedaço do teu coração
num pastel de carne

             ***

três da madrugada no eixão
sem ter prá onde ir
sem ter prá onde correr
gritar não vale
morrer não adianta

              ***

                                               neguinho tá lá na dele
                                               esperando ônibus
                                               com a namorada

                                               aí o cara vai lá
                                               dá um tiro nela
                                               assim na maior

                                               pode?

                                                                                           ***

                                               L2 é pouco
W3 é demais

quando estou muito triste
pego o grande circular
e vou passear
de mãos dadas
com o banco

                                                                                              ***

                                               ASSIM ERA O RESTAURANTE
                                               DA MADRINHA, EM COCALZINHO DE GOIÁS

                                               no restaurante da madrinha,
                                               em cocalzinho de Goiás,
                                               a melhor mesa para se almoçar
                                               era a primeira à esquerda
                                               de quem entrava pela rua
                                               pois era maior e ficava perto da janela,
                                               de onde se via o movimento,
                                               ou a do canto direito,
                                               perto do fogão a lenha,
                                               de quem entrava pelos
                                               fundos, onde tinha
                                               um velho pé de mamão
                                               que nasceu no pé do muro

                                               no restaurante da madrinha,
                                               em Cocalzinho de Goiás,
                                               tinha uma cancela na porta,
                                               onde, todas as sextas-feiras,
                                               ela colocava um ramo de arruda para chamar
                                               os fregueses, espantar os maus espíritos
                                               e as moscas

                                                                                                              ***                                      

                                               nem tudo
                                               que é torto
                                               é errado
                                               veja as pernas
                                               do garrincha
                                               e as árvores
                                               do cerrado
               
                                                                                                              ***

                                               blasfemo e digo que mão de deus
escreve poemas ateus

deus, vem, corre, me limpa
desses pensamentos

chame adélia prado para me salvar

corto logo minha mão
põe fogo neste livro
joga uma pá de cal em mim

me crucifica

faz eu chorar o resto da vida

até eu secar
               
                                                                                                              ***

                                               eu sei que errei
mas prometo
nunca mais
usar a palavra certa

                                                                                                              ***


Do livro:
Menino Diamantino
(2003):


A MISSA

em nome do pai, do filho e do espírito santo
depois da missa eu vou jogar bola e pescar
cantemos todos o canto de entrada – de pé
tenho vara, linha, chumbada e isca boa, minhoca
bendito seja deus que nos reuniu no amor de cristo
eu e inácio vamos pescar naquele trecho do rio, difícil
deus pai todo-poderoso tenha compaixão de nós
mamãe veio me visitar e fomos tomar guaraná
leitura da carta de são paulo apóstolo aos romanos
ela vem de novo mês que vem e vamos tomar
guaraná de novo, ela disse, ela prometeu
senhor, tende piedade de nós
não sei o que eu faço para aprender matemática
evangelho de jesus cristo segundo são lucas
é tempo de manga rosa na casa da dona alair
glória a deus nas alturas
só que lá na casa dela agora tem cachorro bravo
e paz na terra aos homens de boa vontade
irmã deolinda está na missa, bem ali na frente, linda
senhor deus, reis dos céus, deus pai todo-poderoso
só faltam três semanas pra gente sair de férias
nós vos damos graça por vossa imensa glória
meu irmão puxou minha orelha, sangrou, doeu
vós, que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós
aquele cacho de banana que escondi na roça
dos padres deve estar bem maduro
vós, que estás à direita do pai, tende piedade de nós
vou lá sozinho, comer aquele cacho de banana sozinho
vinde a mim os que têm fome – glória a vós, senhor
não subo mais em pé de abacate, caí, quase morro
segura na mão de deus que ele te sustentará
que pena - vão derrubar o muro da casa do seu joão - ai não vai ter mais graça roubar manga lá
oh meu bom jesus que a todos conduz olhai as
crianças do nosso brasil
ah, mas ainda tem muitos outros quintais pra gente
roubar manga, não vai faltar manga nem quintal
o senhor esteja convosco. ele está no meio de nós
quando eu for na fazenda quero andar a cavalo
senhor eu não sou digno que entreis em minha morada
mas dizeis uma só palavra e serei salvo
que palavra será essa, meu deus? a palavra
cavalo serve? e se meu pai vendeu o cavalo?
cordeiro de deus, que tirais o pecado do mundo
será que tô com bicho-do-pé de novo?
no amor e na comunhão do espírito santo
estou arrependido de ter tocado fogo no sapo
abençoe-vos deus todo poderoso, pai, filho e espírito santo
aleluia! aleluia! aleluia!
a missa está no fim e eu não quero ser goleiro outra vez
ide em paz e o senhor vos acompanhe
amém! gol! amém! gol! amém! gol! amém! graças a deus!
pela primeira vez meu time ganhou do time dos anjos




Umbigo

2001

minha poesia é primeira linha
minha poesia não é de segunda mão
minha poesia às vezes é de terceira categoria
minha poesia vai começar. pode soltar os cintos
minha poesia. com a palavra, o poeta
minha poesia é de tirar o fôlego. é só parar de respirar
minha poesia a partir de agora vai fazer uso da palavra
minha poesia - você ainda não leu nada
minha poesia já foi vendida como cachaça pra doido
minha poesia é pra você jogar no chão, mas ainda não
minha poesia é pra você falar mal, mas só no final
minha poesia nunca mais tomou veneno para matar rato
minha poesia pode ser arnaldo, pode ser antunes,
pode ser geraldo, pode ser fagundes
minha poesia sente que tem alguém neste momento
atrás do poema com ujma faca
minha poesia come as cascas das feridas dos prisioneiros
no campo de concentração
minha poesia morde o poema até sair outro poema
minha poesia não é a grande poesia de manuel bandeira
mas é a certeza de que estou vivo
minha poesia sente tremeliques toda vez que ouve leninha e
as ministéricas
minha poesia vem do passado e por lá mesmo fica
minha poesia são meus olhos - molhe-os
minha poesia - cada dia uma linha e uma pequena dor
minha poesia e o poeta entram de mãos dadas no cemitério
para ler lápides e chorar um pouco - saudades dos seus

( ... )
  
Extraído do livro Umbigo (2001).




FRAGMENTO DE UMA ANÁLISE TEXTUAL DE NICOLAS BEHR

“Assim como o homem, a obra também é lançada, posa no mundo e após ela. É nessa experiência do desenraizamento que, segundo Vattino(1991), irão se encontrar os dois conceitos, ode schock e o stoss; ambos os casos “a experiência estética surge como uma experiência de estranhamento, que exige um trabalho de recomposição e de readaptação” perceptivo às novas situações. Porém, o trabalho estético “não visa [...] manifestar-se na manutenção do desenraizamento. Segundo o filósofo italiano, na realização estética tardo-moderna existiria como nunca uma intensificação dessa condição de “despaisamento”  dada pela absoluta falta de uma referência duradoura; um primeiro fato que, retornando à nossa matéria de análise, resulta tematicamente familiar à instabilidade a que assistimos na experiência poética marginal:

                   demoliram minha infância
                        e eu desmoronei
  
                   (Behr, “Bagaço”, 1980)      

Essa precariedade para manter e preservar elementos referenciais estáveis, típica da experiência emotiva dos sistemas de reprodutibilidade técnica e tecnológica, cristaliza no indivíduo, numa vivência plena de finitude. Assim, para esse sujeito, que se movimenta nas coordenadas da existência tardo-moderna, é extremamente difícil se autorreconhecer e se equilibar nelas. (...)



“Um intenso sentimento de mortalidade se instala, então, na experiência existencial do homem contemporâneo, como é ilustrado exemplarmente por aquele já citado poema de Nicolas Behr sobre o qual vale a pena voltar. Dois dos mais influentes símbolos da redenção do homem — o religioso e o político perdem aqui todo significado, arrastando nesse desmoronamento o próprio sujeito que se expressa. Um irremediável esvaziamento de valores atinge aqui os dois extremos do espectro metafísico moderno, o de origem e fundação e o teleológico, o que logicamente não poderia deixar incólume a identidade de um sujeito que se forjou na órbita de tais valores:

                   Deus está morto
                        Marx está morto
                        eu estou morto

                        vou enterrar os três
                        depois de amanhã

                   (Behr, 1980)

Note-se, sem embargo, como a contundência de uma situação irreparável — a morte — ameniza-se na irrupção, meio picaresca, do dístico de fechamento que supõe a presença de uma identidade desdobrada, modificada e diferente daquela que fenece. O pícaro sabe sempre tirar proveito da adversidade e, nesse caso, parece conseguir o feito de renascer do próprio “bagaço” da sua existência. Ainda que de contornos pouco definidos, esse sujeito “despaisado”, distante do paradigma dos paraísos modernos, procura teimosamente maneiras rápidas de driblar, mesmo com ácidos subterfúgios, a própria carência de si. Tenta se readaptar à perda de dela extrair algum proveito, não sem antes deixar-nos perante o absurdo mais contundente:

                        quem teve a mão decepada
                        levante o dedo

                   (Behr, 2005)
                  

Extraído de: CABAÑAS, Teresa. Que poesia é essa?!  Poesia marginal: sujeitos instáveis, estética desajustada... Goiânia: Editora UFG, 2009
            Obra crítica recomendável para os estudiosos do tema!


POEMA PRA QUEM GOSTA DE POESIA

a emoção é a matéria-prima da poesia
assim como o calcário é a matéria-prima
do cal e do cimento

pra chegar à poesia,a emoção
passa por um processo de pré-trituração
anaeróbica, é centrifugada à vácuo
nos pulmões do cérebro e depois lavada
nos altos-fornos da laringe

na segunda fase, a emoção, se resistir
a essa trituração mecânica, é selecionada
manualmente pelo poeta, toda picadinha

é por isso que a emoção chega a você
assim em forma de letras
que juntas formam palavras
que juntas formam versos
que juntos formam emoção
de que tanto precisamos,
matéria-prima da vida










plantei um pé-de-tempo
no canteiro das horas
e fiquei esperando os
brócolis da eternidade

nasceram relógios de alface
ponteiros de couve
segundos de tomate
tic-tac de pontuais cupins
formigas cortam folhas-de-minutos
onde o futuro inseto é pupa,
horário de borboleta

junto ao pé-de-tempo brotaram
calendários de flores
e relógios de sol
para despertar onze horas,
sem a pressa dos adubos químicos

agendas para passarinhos
compromisso de poesia








DAS VANTAGENS DE SER CONFUSO

olhar e ver tudo torto, errado
das vantagens de ser incoerente
demente, temente, tenente, patente
das vantagens de ser repetititititititvo
das vantagens de ser livre, foda-se!
das vantagens de se fingir de morto
qual peixe na feira, olho aberto, parado
das vantagens de ser totalmente louco,
pirado, sem nenhum compromisso com nada,
escravo da mente, sem consciência
celular, sem celular, sem a porra da
agenda, sem rima, sem nada,
só a loucura insana a te emoldurar a alma
loucura – esta bela armadura
esta couraça intransponível
este colete a prova de tudo
este poema, impiedoso,
a te perfurar o coração





POEMA ANTI-AJUDA

felizes os fracos de espírito
pois estes têm gurus
felizes os que ainda botam fé
no ser humano
felizes os que sabem ler
e têm algo para comer todos os dias
felizes os que criam o inferno
para depois prometer o paraíso
felizes os indiferentes, que não se comovem
com nada e sofrem menos
felizes os que mentem para si mesmos e
acreditam piamente nisso
felizes os infelizes, pois estes são
os verdadeiros iluminados
felizes os que nunca choram e, portanto, não
passam vergonha
felizes os que tem autoconfiança, autoestima,
automóvel

felizes os amigos dos poderosos,
que tudo querem, que tudo podem
felizes os que acreditam
no amor de cristo pois estes
não tem mais salvação
felizes os andarilhos, os indecisos,
os confusos, os sem-rumo-na-vida
felizes os que choram com facilidade pois estes
estão sempre reciclando
a água parada dos seus olhos,
fazendo chover em seus corações
felizes os piegas, os românticos
ultrapassados, os bregas, os que falam de amor
sem medo do ridículo, nem que seja
naquela música que vive tocando no rádio
e o povão adora


felizes os que escrevem livros de auto-ajuda e
ganham muito, muito dinheiro,
que é o que realmente importa,
que é o que realmente interessa









A BALADA DO FALSO POETA


minha miséria é meu tesouro

nasci para ser sombra
não tenho face

minha espada acovardou-se
fraca é a minha vontade

a voz do meu algoz é doce
suave é o seu abraço

nas certezas, combustível
nas incertezas, chama

tudo que condeno me atrai
tudo que desprezo desejo
tudo que amo destruo
tudo que admiro não quero
tudo que elogio é falso
tudo que assisto é por interesse
tudo que enterro nada cresce
tudo que sei guardo pra mim
tudo que beijo morre
tudo que é oficial subverto
tudo que toco não ressuscita
tudo que gero vira nada
tudo que vi cegou-me
tudo que aplaudo desaprovo
tudo que é poesia já escrevi melhor
tudo que não é martírio sofri
tudo que me lembro muito bem
tudo que não prometo cumpro
tudo que é burocrático me ojeriza
tudo que leio se desintegra
tudo que me dá medo recuo

tudo que escrevo nego


in: O BAGAÇO DA LARANJA / 2009








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