martes, 28 de octubre de 2014

DOMÍCIO PROENÇA FILHO [13.876]


DOMÍCIO PROENÇA FILHO

(Río de Janeiro, 1936) es profesor emérito de Literatura Brasileña en la Universidad Fluminense de Río de Janeiro, ha impartido clases de lengua portuguesa y literatura brasileña en diferentes universidades europeas y americanas, entre las que cabe destacar las de Colonia, Tubingia o Lisboa. Ha impartido conferencias en estas ciudades y, además, en Roma, Porto, Bolonia, Madrid o Salamanca, entre otras. Sin embargo, su obra todavía no ha sido traducida a la lengua castellana de la península.

Domício Proença es crítico, ensayista, novelista y poeta con cerca de sesenta libros publicados. Como narrador es autor de ficciones tan significativas como Capitú, memórias póstumas, donde glosa la figura de la protagonista de la novela de Machado de Assis, Dom Casmurro. Proença ensaya en este libro un tipo de meta-literatura, en la que los personajes de ficción prolongan sus existencias imaginarias en otras historias, nuevas narraciones, ensayos o comentarios, es decir, que continúan su vida, tal vez con mayor relieve y duración que la de las personas físicas.

En poesía hay que reseñar sus libros O cerco agreste, Dionísio esfacelado: Quilombo dos Palmares y Oratório dos Inconfidentes. Recientemente, ha publicado su último poemario, O risco do jogo, del que se reproducen aquí algunos poemas.

La poesía de Domício Proença Filho, siguiendo la pauta meta-literaria descrita, elabora un discurso fluido, que toma como punto de partida los poemas de Pessoa, Salinas, Bandeira, Castro Alves, Garcilaso, Borges o Camões, entre otros. Pero su voz dialoga no sólo con las voces de otros poetas, sino también con la realidad cotidiana, con los problemas de la gente, con el sufrimiento de un pueblo. Es una poesía solidaria sin dejar de ser existencial, culta sin abandonar las raíces populares, y siempre humana.

En los poemas recogidos en esta página, Domício Proença presenta de forma quintaesenciada los momentos poéticos en los que se producen las epifanías, ese instante de deslumbramiento en el que la realidad deja entrever la verdad profunda de los hechos que la constituyen.

El poeta es un jugador, alguien que se arriesga en su cometido, en el que puede perderse o perderlo todo. Es un jugador de lenguajes, sentimientos e ideas, aunque sean indecibles. Y todo juego tiene riesgos como toda aventura humana cuando es auténtica, pues no se trata de creer, o de crear, sino de vivir en el filo de la navaja: entre el silencio y la palabra. Este es el riesgo y el juego.




Poemas de Domício Proença 
(traducción de Antonio Maura)



El poema 

Entre el verbo
y el silencio
la incisión
profunda.
Sin anestesia.





Sobrevida

Urge
soldar en la forja del poema
las esquirlas 
del alma fracturada
y agitar la llama
con el ritmo 
de la canción
incluso desafinada.






Amantes

La vida iluminada de antiguas rosas
las aguas, fieras tranquilas,
ávidas,
sin vampiros, hombres-lobo
insomnes.
Dóciles, las ondas
en la impensada playa.




Letargo

Los caballos sin freno
del Deseo,
voraz, la inmersión
eterna
fuente
la sed saciada
el amor, de piedra, estatua
de sal.
Queda:
un nuevo rumbo
y la esperanza
de otro aprendizaje.





O canto

Um rio.
Seco.

Pés como plantas
pisando o duro saibro
do vazio.

Agreste.
Ausência, lenta a aprendizagem.

O rio, mestre.






Fermentação

a cada negro
vendido
e, Europa, França e Bahia
o tesouro 
d´El Rey
ria.

Mais de 200 por cento
por peça
menos a cria
o custo saía
de graça
e o tesouro
d´El Rey
ria.

Mais da metade
da carga
das cavernas
dos tumbeiros
morria 
e o tesouro
d´El Rey
ria.

Mulheres rotas e nuas
Quem por elas choraria?
fardos negros

Arrasados
no porão
quem carpiria? 
E o tesouro
d´El Rey
ria.

A boca dos verdes mares
comia
corpo de velhos,
infantes
a carga se reduzia
e o tesouro
d´El Rey
ria.

Os negreiros
aportavam
no cais da velha
Bahia
bolsas de ricos senhores
abertas com galhardia
aos dentes
pernas e braços
dos negros
e suas crias
e o tesouro d´El Rey
ria.

Regada a sangue
de negro
uma pátria se paria
e os párias
morriam secos
de fome
e de covardia
e o tesouro d´El Rey
ria.

Mas uma flor bela, antiga,
brotava na selva virgem
mãos negras a recolhiam
os braços, o orgulho
o peito
e a cerviz
se erguia:
no caminho do Quilombo
o tesouro d´El Rey
morria.






Miscigenação

Inexorável
a libido incendiada
escreve a letra
isenta:
inunda
chão de senzala
e lençóis de casa grande
e pátria regada a sangue
de cores variegadas
democratiza o percurso
e emerge um povo macamba
pesar de todas as penas
negras, cafuzas, índias e mulatas
Eros moreniza
a terra inaugurada
e a carne apaga o verbo
de cronistas assustados
as penas tremem
excitadas
véspera do novo
esterco
de canteiros falsos.

A vida nega o discurso
dos sacerdotes de Cronos.

Eros, um sorriso
enigmático.






O pátio dos enforcados

No pátio
jaz
o patíbulo
e a corda.

No ar,
esponjas de fel.

Nas esquinas do tempo
a cal e as cruzes
de sangue
o sal
a mão
do carrasco.

Há ruínas de palácios
e sombras de cicatrizes
e sob o manto de asfalto
fermentam
velhas raízes
adubadas de silêncio
e da palavra
enforcada:

nos labirintos do tempo
treme a flor anunciada
e floresce
no patíbulo
a corda
desabrochada.

Há ruas
loucas de fome
e uma sede de séculos
nessa praça
envergonhada.






A face do morto

O olhar: fixo
o sono
aberto.
Viva, a face
do morto,
o negro cabelo da
morte e a
longa barba de Mio Cid.

Viva, a morte
do mort
nos lábios cerrados
do morto:
Viva, a morte do morto
na palavras 
livre
do morto,
palavra gritada do morto,
palavra encantada do morto,
a mágica palavra do morto
viva, a palavra do morto.




PROENÇA FILHO, Domício.  Dionísio esfacelado  (Quilombo dos Palmares).  Rio de Janeiro: Achiamé, 1984.  165 p. 14x21 cm.   Capa: Miguel Coelho.  Col. A.M. 



Percurso

Nada
omito
e a falsa fala
da História:
Nada
o rito
a pena
aleira
pergaminho
azedo
apenas um relâmpago:
Nada
a alma branca
o lugar
no mapa:
Nada
o curvo desenho
da cerviz
antigo
a aurora
do ovário
a antemorte
acalanto do gemido:
Nada
todas essas coisas
vazias e tortas
liberdade escrava
sem a memória
do Quilombo
sitiada
véspera
de luzes
ria caverna.






Tempo:

Lâmina
de faca
aziaga.
Longe
a longa pátria verde
nua
o vento
mutilado.

Epopeia,
o curso
atado.

A voragem:
pedras do sangue
negro
na ampulheta.








Mercado

os olhos inertes
cravados além
a lágrima
e o grito
acorrentados
o filho
bendito fruto
do negro ventre
nos braços embira
de pedra
e as garras
carrascos
na carne vermelha
amarga simetria.

O riso adolescente
branco
a cruz de Cristo
e Maria
pendente
na forca
do decote
renda inglesa
o toque agudo
do botim
nos dentes
das donzelas negras
os olhos cúpidos
faróis
no baixo ventre negro
dos varões
e de repente
a faca
e a oferenda
entre aplausos
e loas
e gestos
(poucos)
de vermelho e medo.

No silêncio
escravo
o segredo
a véspera
e na voz do feitor
o preço das peças
gado manso:
o quilombo germina
no ar da terra
nova
e verde
no útero verde
de todas as mulheres
negras

Olorum didê!







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