domingo, 24 de agosto de 2014

ÉLVIO VARGAS [13.017]


ÉLVIO VARGAS 

(1951)
Nacido en Alegrete, Rio Grande do Sul, Brasil. Escribe desde los años sesenta, y publicó su primer poema en septiembre de 1969, en el periódico Gazeta Alegrete. En 1995, dirige y edita el proyecto literario La palabra escrita en Alegrete 1845-1995, una retrospectiva de 150 años de literatura alegretense. En 2007, fue elegido  Patrono de la Feria del Libro en su ciudad natal. 

Publicado: 

O almanaque das estações (1993); Água do sonho (2006); Esparsos vargaslumes (2007).




ALEGRETE

La ciudad que heredé
tiene rebanõs de piedra
semovientes de sombras
un caballo de troya.
Negritos, salamandras y pastoreos
perseguidos por un rio
atizado de vertientes
en la misteriosa profecía
de sus aguas.
Ijadas, huertos y caseríos
quinchados de sol poniente.
Cartuns, Cartago
músicas que nunca acabam
hechizando el mágico festín
de mis juguetes.
Iglesias de torres afiladas
en un cielo azulado de sueño
vigilado a la distancia
por una minúscula
luna de marfil. Bauticé de Alegrete
los reinos silenciosos
de la ciudad que inventé…





ALEGRETE

A cidade que herdei
tem rebanhos de pedra
semoventes de sombras
e um cavalo de tróia.
Negrinhos, salamandras e pastoreios
perseguidos por um rio
atiçado de vertentes
na misteriosa profecia
de suas águas
Ilhargas, hortos e casarios
quinchados de sóis poentes
Cartuns, Cartago
músicas que jamais acabam
enfeitiçando o mágico festim
dos meus brinquedos
Igrejas de torres afiadas
num céu azulado de sonho
vigiado a distância
por uma minúscula
lua de marfim.
Batizei de Alegrete
os reinos silenciosos
da cidade que inventei…





ALEGRETE

The city I inherited
has stone herds of
moving shadows
and a horse of Troy.
Black boys, salamanders
and pastures
chased by a river
stirred up by streams
in the mysterious prophecy
of its waters.
Flanks, garden and rows of houses
thatched by setting suns.
Cartuns, Cartaghe
endless songs
charming the magic feast
of my playthings.
Churches with sharp towers
against the blue of a dream sky
watched at a distance by a minuscule
ivory monn.
I batpized Alegrete
the silente kingdoms
of the city I invented…





O ANJO

De todos os meus delitos
o mais grave tem sido
esta insônia da eternidade.
Toda a expiação que cometi
foi punida
por esta metamorforse do anjo
mortalmente ferido
pelo abismo de vôo quebrado.
Sem asas sobressalentes
declaro-me apócrifo
perambulando pelas rapinas do céu.
As substâncias que trago
desvendam os mistérios do coração
e decifram os signos do pensamento.
Nomearam-me com exclusivos poderes
para a guarda de amores proibidos
e desejos tontos de esperança.
Fui alertado severamente
sobre o uso abusivo das paixões
e intensas overdoses de sono.

Tive o corpo
totalmente sequestrado
não deixo sombras, nem vestígios
interfiro quando solicitado
pela mágica música dos presságios.
Instantâneo me transmuto
numa peregrina intenção de viagem.
Sou este fósforo de luz 
na noite apagada
um anjo, mais nada.




CARMIM 

A vida
vai fazendo de mim
um alambrador
das longínquas sesmarias da imensidão
a china, o truco, a tava
carrego pelo mundo afora
nesta minha sina de carmim.
Meus acordes são feitos
de saudades, lembranças e solidão
as milongas que escrevo
nascem dos remansos de um coração.
Meus tangos, a rancheira e o baião
vêm na flor do desespero
abrindo o teu vestido de xitão.
O braço do violão
te aperta
e toca por diante
toadas, valsas e canções.

Teu corpo
estirado nas léguas de capim
é um sono de quero-quero
um gaita de botão
que perdidamente dedilho até o fim.
A vida vai fazendo de mim
um alambrador
das longínquas sesmarias
da imensidão. 





CAIM

O deus que me fez
usou sal, areia, granizo e pedra.
As águas prometidas
jamais choveram.
Minhas vinhas eram de sangue
o gosto acre, amargo
até a esperança encardiu.
Os linhos de Abel
eram persas
as miçangas gregas
os turbantes de Damasco.
Minhas sandálias couro cru
fiadas em peles de serpentes.
O corpo
uma arado de músculos
as mãos, retorcidas e aduncas
escondiam um sexo
de insônia e atrofia.
Outro Deus me proibia
eu teimava, praguejando
entre sóis incandescentes
e luas de martírio.
Minhas vestes tisnadas
gritavam blasfêmia, perjuro
pecado e sedução.
Meu coração era um fogo
minha palavra, danação.
Sete vezes me excomungaram
banido fui
das fronteiras do Éden.
Comigo foram
amores que não tinham pátria
sonhos encarcerados
conspiração, silêncios
êxtase e loucura
hordas de párias, mendigos
loucos, amanhecidos
tudo aquilo que não tem governo.
Depois da luz
eu vim.

2002




CONTATOS DE 1º GRAU

(Para Maina Rodrigues Vargas)

Anos a fio, troquei
esperanças por álgebras
ciranda por verbos
e sonhos
pela geografia do primeiro amor.
Matriculado permaneço
descobrindo fórmulas
para a matemática da vida. 






O NAVIO DE VIDRO

O dia de partir
é aquele de sustentar
auroras na proa
e soltar âncoras
nas ilhas do céu.
Navio - imagem obtida da Internet 
(autor não referido).

Nessa hora
haverá ventos limpos
num cais parado
barcos amanhecidos
de conveses molhados.
Absurdo será o mar
submersa será a vida.
Nesse dia
surgirá uma pressa ferida
como uma loucura desamparada
as malas terão o sopro da brisa
o caminho a força das águas. 

Nessa noite
nascerá uma lua assustada
com estrelas em desalinho
no brilho delas
aviaremos rudes máscaras de linho
Para esse tempo
farei com cristais de insônia
um navio de vidro
que singrará até o fim
todas as correntezas
que navegam em mim.






ZODÍACO

(...)
Vivi na rotação máxima
de cada signo
Extraí deles os elementos
de solidão e contentamento
que foram urdindo
vagarosamente
o indecifrável horóscopo
da minha vida.





ESCRITURAS

Minha vida tem sido um rio
escrito com rápida correnteza.
Todos os meus cardumes
trocaram seus leitos
pela imensidão do céu.
Para uma lenta aproximação
reciclo sonhos e os transformo
em vôos de pandorga, esculpida
nestes azuis dos meu fins
de tarde...






O ANO VELHO

Quando viajam estes anos velhos
vão com eles tantas coisas nossas
aquela lágrima de cristal
que nem o tempo mais desfaz
uma saudade desbotada
que sonha pelo infinito grau do encontro
ou talvez até, uma paixão no seu banho
de espera, solte seu grito, depois
da última taça de champanhe.
Na virada destes, com ardente frequência
casamos com aquelas sublimes tentações
que nos reservam os sonhos que não sonharam.
O destino nesta hora é implacável
na sua fatalidade nos rouba o encantamento
mas mesmo assim, teimamos
pelo resgate da magia perdida.
Quando viajam estes anos velhos
vão com eles tantas coisas nossas
aqueles sapatos que esqueceram os caminhos
a ciranda das almas amigas
morando ali no próximo hemisfério
e um pouquinho do nosso resto adolescente
que no finzinho do ano que vai
sonha no comecinho do ano que vem... 






OS VAGÕES DE SCHINDLER

Trilhos, dormentes, rebites
nada mais me socorria.
Meu destino estava selado
era ferro contra ferro
fornalha acesa
no calor dos medos.
Trem -------------
abrindo clareiras
nas linhas da escuridão.

Meus mortos
trago encadernados
no desenho das brumas
os vivos, classificados
um a um
nas coisas do coração.
Carrego os bolsos vazios
com alguns fragmentos
de esperança. 
Me considero pronto
lentamente conduzido
para ser gado
no tombadilhos dos vagões.
Gueto
encharcado nos vapores
rumo ao túnel silencioso
da eternidade ---------- 





COLCHA DE RETALHOS

(Para Wilma Pereira Vargas) 

 Pendurei a esperança
na parte mais alta
do varal
roupa suja, mancha, vícios
ficaram enxaguados
no fundo dos baldes
paixões encardidas e panos
permaneceram alvejados
no silêncio dos tanques.
As borbulhas que na água brotaram
não eram minhas
nem tuas
pertenciam ao espólio
dos amores submersos.
Pássaro, rio, nuvem, voaram
restaram a solidão e o retrato.
Para espantar as sombras
varremos o pó das lembranças
e o cisco da existência.

Os fios engruvinhados da memória
pespontamos nos labirintos
de um ponto cruz.
Almas, saudades, presságios e tempo
são retalhos de uma pequena colcha
bordada com lãs de outono.
Delicado tecido de paciência
cerzindo com nós de orvalho
o lento enigma da vida.





LUZ BOREAL
(ao Rammé)

Vêm de muito longe
as vidas que vivem em mim
na cumplicidade e no pacto
sou nuvem, migalhas de sonho
e pensamento
o sono das águas
nesse rio invísível do vento.
Às vezes, e não são escassas
trago o ritmo
intuição e encantamento.
Sou um estrangeiro
mascate da luz boreal.
É tarde demais
me construíram assim
com este estranho tecido
de sangue, linguagem e paixão
carregado de sóis amedrontados
e luas transitivas.






ÁLBUM DE FAMÍLIA

Os retratos guardavam
nas paredes o encanto
solitário da vida
que começava cedo.
Tinha naquela gente
o olhar vivo
de uma paixão suspensa.
Eles entravam e saíam
daquelas fotos
como quem invade
a sala de espera
do mundo.
Vestiam casimiras leves
calças curtas
e sapatos pretos.
Emprestavam as roupas
usadas de suas lembranças
púrpuras, viviam com as
mãos cheias da pálida
luz que ficou do último
flash do tempo.
Rindo uns, sonhando outros
eles dançavam pela
música de suas antigas canções.
Hoje ao folhear estas páginas
vamos sentindo saudades
daqueles que ficaram presos
por um fino véu de luar
neste eterno álbum de família.



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