martes, 18 de junio de 2013

ALEXANDRE BONAFIM [10.108]


ALEXANDRE BONAFIM

(Belo Horizonte, BRASIL  1976) publicó un libro de poemas Biografía del desierto (2006) y tiene varios libros inéditos. Además de poeta, es escritor de cuentos, columnista, crítico literario, master en literatura brasileña y portuguesa. Profesor de la Universidad Estatal Goiáss - UEG.





CELEBRACIÓN DE LAS MAREAS

- II -
 
"Lejos el marinero tiene
Una serena playa de manos puras"
Sophia de Mello Breyner Andresen
 
Del tronco de los océanos, del fecundo vientre de la noche,
nace su pecho tatuado por la fuerza de las anclas,
por la furia de los caballos marinos.
Su patria siempre fue los relámpagos,
la sal, el trémulo pergamino de los vendavales.
 
Hace milenios él se perdió de toda tierra.
Hace siglos su andar tiene la levedad de las quillas sobre las olas,
de las velas desvestidas por la sal.
Por eso su destino siempre se quebró contra las mareas,
contra la amplitud de las aguas sin nombre.
Por eso su barco siempre se partió contra el infinito,
contra el nacimiento del mundo.
 
El marinero mora en antiguas tempestades.
De tanto quemarse el rostro en las olas,
sus ojos vistieron el éxtasis de cardúmenes ciegos,
de corales inundados de luz.
 
De lejos, de muy lejos él viene...
 
Una cicatriz le corta el rostro:
relámpago, nido de anguilas.
Una cicatriz le corta la vida,
el corazón, su destino entero:
daga de fina luz que singla
los sueños, la inocencia.
 
Desiertos sedientos, sequedad de huesos
arden su tronco, corroen sus deseos.
Por eso el errar es su campo, su refugio.
Por eso ningún lugar es su túmulo.
 
La vida estalla en sus vísceras,
con la lucidez de los ácidos agudos,
La vida le es la urgencia del salto,
del grito de las aguas, del rugir de las olas.
 
De lejos, de muy lejos él viene...
 
Él tiene el brazo quebrado por las lluvias,
la boca cincelada por el olor del mar.
Todo el océano adormece en sus párpados.
Todas las tempestades se posan en sus pulsos.
Él tiene el don de las lunas llenas,
el estigma de las constelaciones desnudas.
 
Del fecundo vientre de los océanos, del tronco de la noche,
nace su semen fustigado por la violencia de los astros,
por la fiebre de las estrellas marinas.
En sus flancos veleros arden los puntos cardinales,
la embriaguez de las gaviotas consumidas por el azul.
 
De lejos, de muy lejos él viene...
 
Dentro de sus ojos, en el íntimo secreto de su miedo,
nadan medusas, tiburones ciegos.
Dentro de su asombro flotan corsarios ahogados,
sirenas amputadas, cordilleras iluminadas.
Por eso su piel siempre se desnuda en los nacimientos,
en las celebraciones súbitas.
Por eso su cuerpo siempre se nombra en el orgasmo de los retoños,
en el ardor de las aguas vivas.
 
El marinero mora en la ruina de los vientos.
De tanto herir las ilusiones en la sal,
todo su existir vistió el esplendor del Atlántico,
la furia mórbida del Pacífico.
 
De lejos, de muy lejos él viene...
 
Su barco siempre fue el silencio de las caracolas,
las algas, la soledad de las islas olvidadas.
Las fatalidades navegan en sus hombros.
Los desastres apuñalan su nombre.
Toda su lucha siempre fue clavarle los ojos a la muerte de frente,
como quien canta una canción de cuna a un niño jamás nacido.
 
De lejos, de muy lejos él viene...

Traducción: Alberto Acosta




Celebração das Marés

- II -
 
"Longe o marinheiro tem
Uma serena praia de mãos puras"
Sophia de Mello Breyner Andresen
 
Do cerne dos oceanos, do fecundo ventre da noite,
nasce seu peito tatuado pela força das âncoras,
pela fúria dos cavalos marinhos.
Sua pátria sempre foi os relâmpagos,
o sal, o trêmulo pergaminho dos vendavais.
 
Há milênios ele se perdeu de toda terra.
Há séculos seu andar tem a leveza das quilhas sobre as ondas,
das velas despidas pelo sal.
Por isso seu destino sempre se quebrou contra as marés,
contra a amplidão das águas sem nome.
Por isso seu barco sempre se partiu contra o infinito,
contra o nascimento do mundo.
 
O marinheiro mora em antigas tempestades.
De tanto queimar o rosto nas ondas,
seus olhos vestiram o êxtase dos cardumes cegos,
dos corais inundados de luz.
 
De longe, de muito longe ele vem...
 
Uma cicatriz corta-lhe o rosto:
relâmpago, ninho de enguias.
Uma cicatriz corta-lha a vida,
o coração, o seu destino inteiro:
faca de fina luz a singrar
os sonhos, a inocência.
 
Desertos sedentos, sequidão de ossos
ardem seu cerne, corroem seus desejos.
Por isso a errância é sua campa, seu jazigo.
Por isso lugar nenhum é seu túmulo.
 
A vida espoca em suas vísceras,
com a lucidez do ácidos agudos,
A vida é-lhe a urgência do salto,
do grito das águas, do urro das ondas.
 
De longe, de muito longe ele vem...
 
Ele tem o braço quebrado pelas chuvas,
a boca cinzelada pelas maresias.
Todo o oceano adormece em suas pálpebras.
Todas as procelas pousam em seus pulsos.
Ele tem o dom das luas cheias,
o estigma das constelações desnudas.
 
Do fecundo ventre dos oceanos, do cerne da noite,
nasce seu sêmen fustigado pela violência dos astros,
pela febre das estrelas marinhas.
Nos seus flancos veleiros ardem os pontos cardeais,
a embriaguez das gaivotas consumidas pelo azul.
 
De longe, de muito longe ele vem...
 
Dentro de seus olhos, no íntimo secreto do seu medo,
nadam medusas, tubarões cegos.
Dentro de seu assombro bóiam corsários afogados,
sereias decepadas, cordilheiras iluminadas.
Por isso sua pele sempre se desnuda nos nascimentos,
nas celebrações súbitas.
Por isso seu corpo sempre se nomeia no orgasmo das rebentações,
na ardências das águas vivas.
 
O marinheiro mora na ruína dos ventos.
De tanto rasgar as ilusões no sal,
todo o seu existir vestiu o esplendor do Atlântico,
a fúria mórbida do Pacífico.
 
De longe, de muito longe ele vem...
 
Seu barco sempre foi o silêncio dos búzios,
as algas, a solidão das ilhas esquecidas.
As fatalidades navegam em seus ombros.
Os desastres apunhalam seu nome.
Toda a sua luta sempre foi fitar a morte de frente,
como quem acalanta um criança jamais nascida.
 
De longe, de muito longe ele vem...








A menina morta

a Cornélio Pena

De sua fotografia
a menina morta
me sorri.
Quem lhe pousou
entre os cabelos
aquela flor
de assombro?
Quem lhe maquiou
as fazes
com aquela cor
de espanto?
A menina morta
me sorri
do fundo
de um poço
da lonjura
da eternidade.
Nas suas pálpebras
de sonho
na sua testa
de sombra
reluz o mistério
da morte
a invisível tez
do silêncio.
A menina morta
canta
com a boca
amordaçada.
Ela brinca de ciranda
com a sombra das árvores
ela pula amarelinha
com a solidão das pedras.
A menina morta
só sabe abraçar
o calor do mármore
ela só sabe conversar
com o eco dos granitos.
Ninguém nota
na parede
seu rosto de névoa
sua expressão de gelo.
Há teias de esquecimento
em seus ombros.
Há poeira de memória
em seus cílios.
De sua fotografia
a menina morta
me sorri.
Com a calma
dos séculos
ela aguarda
a chegada
de todos
os silêncios.






Quaresmeiras

Por entre as paredes
da memória
desenhado a giz
um menino teima
em brincar
com as sombras
do silêncio.

Quaresmeiras
latejantes de cor
também insistem
em fincar raízes
no que se perdeu.
ao adentrares a brancura
dessa página
folhas e húmus
hão de enredar
o teu nome
o teu passado.

A brancura desse poema
há de mergulhar
a tua voz
nas origens
de todo
esquecimento.

Por entre os muros
da palavra
uma criança teima
em desenhar
na existência
um rosto de chuva
para sempre iluminado.







O pavão

As penas do pavão
guardam as entranhas
da luz
as raízes da água.
Olhos do inominado
pupilas do silêncio
as penas do pavão
desvelam a lua
na arquitetura
do arco-íris.
E tudo se silencia
tudo se cala
ante a fulguração
do mistério:
a estranheza
o susto
toda a perplexidade
se petrificam
ante a cintilação
do real.
Aos pés
daquela esfinge
tombam perguntas
ocas
ecos de ecos
sem voz.
As penas do pavão
abrem o ministério
como um leque
de brisas insanas.

Extraídos de POESIA SEMPRE, revista da Fundação Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro), N. 26, Ano 14, 2007.




De Celebração das marés


III

Do poema nada nos resta
a não ser essa viagem
rumo aos mares,
esse gosto de naufrágio
ao findar das paixões,
esse astrolábio partido.

A leitura do poema,
peixe cego, barco amputado,
nada nos ensina,
em nada modifica
a força das marés.

Rastro de espuma
na pele dos acasos,
o poema finca suas âncoras
no sal, na eternidade,
onde nossas ausências
ardem o grito dos corais.

O poema é nudez precária,
procela sem ventos, sem nuvens.
Quando nele adormecemos,
acordamos com os ossos fraturados,
vergastados pelas maresias.

O poema é tão inútil
quanto o mar ao fim da tarde.

Por isso seu esplendor é límpido
como a beleza da morte.





De ARQUEOLOGIA DOS ACASOS 
São Paulo: Editora Delicatta, 2010. 
79 p. ISBN 978-85-64167-02-05



Poema

Ergo as paredes desse poema
claro, transparente
como a nudez do dia.
Desenho, linha a linha,
a luz dessas palavras,
instante imaculado,
fecunda lâmina.
Nesse verbo me deito.
Nele me preparo para a morte.
Nesse vinho adormeço.
Nele me cicatrizo por inteiro.
Faço desses versos
a minha pele,
as minhas pernas.
Teço com esse sopro
as minhas vértebras,
o meu âmago.
Nas sílabas desse poema,
sustento a gravidade do mundo,
ergo o dia como uma coluna
de pássaros e árvores de âmbar.
Nas letras desse abismo,
escrevo esse silêncio vertical,
perfeito como o céu de maio.
Ergo as paredes desse texto,
como quem erige o próprio túmulo,
a mesma velha antiga eternidade.




III

Rilke ea Baitadora andalusa

No meio da noite, nos braços da embriaguez,
contemplas essa bailadora de ardentes
constelações, de mil gestos como pássaros
apunhalados pelo sol, pela vertigem do vinho.
Esfinge de desertos sedentos de luz,
pergaminho de rubis em vivo magma,
somente tal dádiva pode incendiar-te
na plenitude do teu ser; somente essa terrível
beleza sabe queimar as tuas feridas,
o teu ser anterior ao nascimento,
contemporâneo da eterna morte.
Rútilo em absoluto movimento,
esse rochedo evola-se em cristalina dança,
em vertiginoso frémito: asa de uma suave
música a incinerar-te na agudeza do êxtase,
na beleza dos desastres. O rosto da bailadora
arde o teu olhar em viva labareda, em círculos
de um fogo concêntrico, infinito vórtice
em incêndios múltiplos. Dessa chama ressuscitas,
nela te inscreves, fazes de tua carne o bailado
das flamas, o frémito das centelhas.
Desse sol insurges, a ele consagras tua frágil
humanidade, essa invencível muralha, serena
cordilheira. Dessa queimadura fazes a tua sede,
as brasas de latejante existência.

Longamente fitas o estertor dessa face,
desse sorriso a pulsar os relâmpagos...
Também teu rosto toma-se fogo,
cântico, fuga de violinos em fúria,
sopro de sementes em louvor.
Tão intimamente abraças esse vício,
tão completamente respiras a alquimia
dessa febre, que de tuas entranhas
faz-se a fome de um Deus selvagem.







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