martes, 23 de octubre de 2012

EDUARDO STERZI [8186]





EDUARDO STERZI 

Eduardo Sterzi nació en Porto Alegre, BRASIL en 1973. Licenciado en periodismo por la UFRGS, trabajó como reportero y editor antes de comenzar su licenciatura en Literatura en PUCRS en 1997, defendiendo su tesis en 2000 sobre "Murilo Mendes e o sublime", seguida de una tesis doctoral entre la Unicamp y Sapienza, Roma, en la "Nova Vita de Dante y el origen de la lírica moderna". Tiene dos posdoctorados en "tierra baldía tópica" (USP) y Gianfranco Contini y la importancia del paradigma filológico para la renovación de la historia de la literatura, de la Universidad de la Sapienza. Es uno de los más importantes activos de la actual generación de poetas. Se estrenó como poeta en 2001 con el libro "Prosa", por el que recibió el premio en la categoría de Literatura Açorianos Apocalipsis Autor. En 2009, lanzó su segundo libro, Aleijão (RJ: 7Letras, 2009).

El poeta está preparando dos libros sobre poetas contemporáneos brasileños, Carlito Azevedo e Age de Carvalho, programados para su lanzamiento en 2013. Profesor de Teoría de la Literatura en la Unicamp, el poeta vive y trabaja en São Paulo.




Otro tigre

Tigre, diamante vertebrado,
ninguna jaula podrá
retener, inflexible, la fría
furia de tu mirada.

Nuestro inútil terror de humanos
extraerá, del mundo en que vives,
la fuerza líquida (fluctísona) de
músculos invisibles.

Tigre, metáfora del tiempo,
demonio ciego de la distancia:
¿qué ser, herido de belleza,
te admira con seguridad? 

[Traducción de Manuel Hamerlinck Grau]




Outro tigre

Tigre, diamante vertebrado,
nenhuma jaula poderá
reter, inflexível, a fria
fúria do teu olhar.
Nosso inútil terror de humanos
extrairá, do mundo em que vives,
a força líquida (flutíssona) de
músculos invisíveis.

Tigre, metáfora do tempo,
demônio cego da distância:
que ser, ferido de beleza,
te admira em segurança?





OUTRO CACTO

Abstrai, se alcanças, o cacto de Bandeira,
imponente em sua queda de colosso.
Abstrai toda paisagem
e, sobretudo,
toda contaminação
humana.
Pondera o cacto
pequeno,
sem flor mas também sem deserto:
cacto de vaso,
de apartamento:
cacto sem metáfora.
Em sua matriz esquálida,
mas por isso ideal,
molda, a partir de agora,
teu viver —
Tu, forma vaga,
pretensão
de aspereza.





POEMAS DE EDUARDO STERZI
extraídos do livro Aleijão (Rio de Janeiro: 7Letras, 2009).


CASA DE DETENÇÃO

             Há tempos que eu já desisti
            dos planos daquele assalto.
                Nei Lisboa, Telhados de Paris

Porto Alegre acabou:

no abraço compulsório; no sonegado. No ponto
morto dos dias, das festas de família. Na tosse com-
partida, na asfixia. No óxido das grades. No copo
azul, solitário, de boca larga (conforme à sede her-
dada). No piano de teclas áfonas (atraente a cupins).
Na enciclopédia de fomes vermelhas (agora cance-
ladas). No embate adiado. No revólver sufocado. No
inexprimido (embora exprimível). No guardado.

Como escapar ao cárcere
do nome?

Todo retrato é auto-retrato, e toda tatuagem. Todo
escrito é registro de gasto, e é desgaste. Crime é
silêncio. Fuga é sintaxe. Fogo fluente de uma cela
a outra (de resto, incomunicáveis). Persiste a me-
mória do desastre. A noite desova cadáveres neste
quarto de outra cidade. Acolhe a ratazana, em vés-
pera de crias. Presume clareza do espaço abando-
nado. Acabou. No abraço encardido, acanhado.

Nasço velho deste abraço.

§


ENFANT PHARE 

De um lado, a família puída, a
      mobília entrevada, o
      cadeado, o cheiro de
      guardado e naftalina.

De outro, a noite corroída, a
      saliva ácida: ratos
      luminosos, relâmpagos
      amestrados.

§

A BARCA

Incendiou-se a barca
que nos levava ao continente.
Dormíamos
em nossas cabines:
a família
toda morreu.

Era festa
no sono: tão
entretidos,
nem percebemos.

No cais,
à nossa espera,
ninguém: ninguém
deu por nossa falta;
ninguém nos reconheceu.

Outra festa, agora,
na memória
de ninguém.
Não bebemos;
não dançamos.
Berrávamos, silenciosos, nas profundezas.
Ninguém despertou
com nossas vozes.

§

BERCEUSE 

Remédios têm-me
roído a memória
Às vezes mesmo
esqueço tomá-los

Respondo imprestável
a estímulos vários,
perguntas simples
(Nenhuma simples
bastante)

Temos que
castrar os gatos
(Não há quem
durma)

§

PAÍS 

                               Isso
que chamamos “amigos”
e às vezes perdemos
porque o repuxo os carrega
sempre mais para o fundo:
para antes das ondas,
onde dormem os peixes;
para depois da memória,
onde morrem duas vezes

– isso desfaz-se
sombra
              que a luz
do farol atravessa.

*

            Isso
que é tábua
de solidão
a que nos
agarramos
quando falta o
chão e,
              náufragos,
sonhamos com terra

– isso é quase um país.

Mas esse país
não existe. Esse país
não presta.

31 março – 1. abril 2004

§

PERSONAGENS

Eduardo Stenzi
matou-se aos 18.
Não resistiu à “paixão”.
Estava na moda.

Eduardo Strezi,
príncipe dos poetas
desdentados,
afogou-se no Adriático.
Dois ou três amigos seus
derramaram
óleo
no ponto suposto da morte
e deitaram
fogo ao mar.

Eduardo Sperb,
cujo fraque “foi motivo de destaque”
nas colunas sociais,
mal completou um mês de casado.
Denise o deixou por um uruguaio.

Eduardo Strazzi
morreu de tristeza
Assim, pelo menos, suspeita sua mãe,
que, no entanto, não diz a ninguém.

Edoardo Stronzo,
o idiota da aldeia,
o bobo sem corte,
o filho do delegado: que presente trouxemos para ele
da viagem?

Eduardo Steso
sofria de nanismo severo.
Tentou todos os tratamentos.
Desistiu.
Adoeceu
de outra doença.
Definhou.
Está desenganado.

Eduardo Stesso
sempre foi confundido com seu gêmeo,
Roberto.
Pensou em pintar os cabelos
ou fazer plástica.
Consultou os amigos,
que desaconselharam.

Eduardo Esteves:
assim se chamava o técnico
do time de futebol
do Clube de Regatas.
Era pseudônimo.
Seu nome verdadeiro: Mario Babbo Natale.

Eduardo Stern
dizia-se parente de H. Stern,
“e não muito distante”.
Atormentava os netos com a informação duvidosa e reiterada
sempre que passava em frente à loja
de Copacabana.

Eduardo Stereo:
previsivelmente, DJ.

Eduardo Stecco,
financista, 53 anos,
diz não saber o que é crise.
No ano passado, enquanto os outros perdiam
na Bolsa, só ele ganhava. Seu segredo?
Não conta a ninguém.

Eduardo Esterco,
brilhante orador,
culto, simpático.
É prejudicado pelo sobrenome, que já tentou mudar.

Eduardo Stretto,
regente da sinfônica de sua cidade,
acredita que nomes condicionam destinos.
Escreveu um livro a respeito, mas não encontrou  quem publicasse.

Eduardo Strezzi
recebe frequentemente correspondências
em que o seu nome aparece
com apenas um z
ou, pior, com dois ss.

Eduardo Estéril
tem cinco filho bastardos.
A mulher sabe de dois. Dos outros dois, desconfia. 
            [Do último, nada.

Edoardo Stento,
engenheiro de Milão,
tem uma casa de campo na Toscana. Está alugada
para um escritor norueguês que
há dois anos
não escreve uma linha, cansado de ser um clichê,
impossibilitado de não o ser.

Eduardo Stenio,
ator, desempenhou magistralmente o papel de Prospero
na última montagem do grupo Qual.
Seu nome foi cogitado para todos os prêmios.
Não ganhou nenhum.

Edoardo Strozzi
é talvez mafioso.
Comenta-se.
Ninguém confirma.
Seja como for,
melhor deixá-lo em paz.
Passa todos os dias
sentado à porta
do “estabelecimento”.
O que é que vendem lá mesmo?

Eduardo Stervi,
homeopata, mudou-se para a Austrália,
onde vive sozinho. Seu sonho é conhecer
a Grande Barreira de Corais.
Pratica o montanhismo.

Eduardo Straz,
perdido que só.
Perdeu tudo o que tinha no bingo.
A filha não o quer ver nem pintado.

Eduardo Estêncil
espalhou flyers divulgando seus serviços
entre os frequentadores do Espaço Unibanco.
Passaram-se dez dias, e nenhum telefonema.

Eduardo Streb,
filho de alemães,
estuda no colégio canadense.
Aos quinze, fará intercâmbio
e perderá a virgindade.

Eduardo Esterházy
diz ser conde,
mas vive de investimentos
na indústria pornográfica.
Namorou uma atriz
que lhe passou aids.
Ele ainda não sabe.

§

UTRUM DEUS SIT SUBIECTUM HUIUS SCIENTIAE 

Uma voz não sei de Quê
de Quando escondido e Onde pouco nítido
pede-me que esqueça
que é forma não formada

Mas não Não caio
na lábia do poema
seu não ter
De Quê nem Porquê

Aqui se faz Aqui
se prega (O que se arrasta sobre as águas e às vezes se afoga?)
É antes uma íngua na fala
uma pedra debaixo da língua


§

LIÇÃO DE ESCRITA

     Não meça
a temperatura: pouco
importa se o corpo
     dá-se, agora,
     em forma
     de colapso.

      Esqueça
a máscara tesa
que sequestra o sorriso
      por sob
      a pele.

      Releve
a agulha inclusa
que te paralisa
      beijo e protesto.

      Reserve
uma hora diária
para afagar tua miséria.
      Ou resista:
      não vale a escrita.

§

POETAS

poetas são todos uns merdas
só pensam em dinheiro
matá-los seria perfeito
não fossem a sujeira e os berros


§

AS ARmAS [, Ou: TAmBém O SABES] 

minha mulher tua irmã foi levada
tua voz me pergunta o que fazer
agora
mas só a voz já também o sabes
não há por que perguntar
as armas nossas armas já estão
no porta-malas
e o carro está no curso
eu dirijo tu mordes o lábio de baixo
não digo e não dizes palavra
conheces conheço a tocaia
de outras datas
sabemos o que nos aguarda
não festa não artifício não alívio
mesmo depois e depois de depois
será doído

§

VAPOR E CIMENTO 

Enquanto deslizo – serpente 
metálica – ao longo do arroio, 
a proa rasgando o 
asfalto, temente apenas 
a radares e outros 
roedores, 

meus olhos se despregam 
do fluxo apático 
e, de repente, 
descobrem, ao fundo, 
formações efêmeras 
de algodão e 
reboco, vapor e 
cimento – o assim 
chamado “horizonte” – 
morrendo em rosa e
cinzento; 

poderia ser o fim do mundo, 
mas aqueles óculos 
mudaram a percepção 
de tudo, e ela pôde, 
ao meu lado, mesmo 
assustada, sorrir, 
embora sua fala, 
no rapto do instante,
cessasse abrupta, à espera 
de alguém – tigre ou 
anjo – que, munido 
de ferramentas apropriadas, 
nos arrancasse 
do cerrado cipoal 
das ferragens; 

poderia ser o fim 
do mundo, mas, 
hóspede perpétuo 
da mais ímpia 
masmorra 
(onde o chão 
morde o teto) 
do palácio 
gasoso 
 das lembranças, 
fantasio-me liberto, 
preso apenas a 
um que outro 
relâmpago: o prego, 
áspero de cimento, 
cravado no pé esquerdo; 
o primeiro golpe 
da adaga (a vítima 
sobre a pia, 
ao lado de uma 
privada); o lustre 
de inúteis tentáculos
rebentando no ventre 
da sala; tua última 
palavra. 

Porto Alegre, 31 dezembro 2002

§

RETÂNGULOS 

Pequenos animais se formam 
de pele e pelo acumulados 
     nas arestas do quarto, 
do pó dos corpos repentinos 
     no atrito dos abraços. 

Como amestrá-los ao espetáculo 
da arena extrema de retângulos 
     flutuantes, superpostos? 
se os amantes – invertebrados – 
     confundem-se aos detritos.


§

DOIS POEMAS RECENTES DE EDUARDO STERZI

Confissões de um clandestino

I

Maradagàl ou Parapagàl?
Kakânia ou Brasilândia?
Não-Me-Toque ou Cacique Doble?
Kuala Lumpur ou Tora Bora?
Bora Bora ou Macondo?
Desterro ou Bauru?
Pouso Alegre ou Parintins?
Porto Alegre ou Portalegre?
Teerã ou Teresópolis?
Canoas ou Canaã?
Xangai ou Bangu?
Xingu ou Bangladesh?
Pardieiro ou Pasárgada?
Roma ou Rêmora?


II

O pessoal do trabalho pensa que sou porto-riquenho
O pessoal do trabalho pensa que sou pernambucano


(publicado originalmente na revista do curso Tantas Letras!,
promovido por Tarso de Melo em São Bernardo do Campo)

§

Métodos

Meu nome é Serapião Balestra
Eu resolvo problemas
Meus métodos são pouco ortodoxos
Às vezes uso martelos


(publicado originalmente em Silva, jornal editado pelo Ricardo Lísias.







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